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No passado dia 21 de julho por volta das onze da manhã, o artista norte-americano Tyler, The Creator lançou o seu novo álbum de estúdio, Don’t Tap The Glass. Este disco, anunciado pouquíssimo antes do seu lançamento, consta no repertório do seu autor como o nono álbum de estúdio da sua carreira, sucedendo ao bem-recebido e aclamado CHROMAKOPIA, cujo lançamento ainda não assinala um ano. O álbum é constituído por dez músicas, e segue algumas características algo diferentes do percurso natural do cantor.

E, como é claro, eu fui ouvir o álbum logo que ele saiu – logo, que é como quem diz, disseram-me que ele saía às onze mas eu nem sabia onde o procurar (estas tecnologias de hoje…), por isso acabei a ouvi-lo mais ou menos uns vinte minutos depois.

Em primeiro lugar, acho importante e bastante reveladora a legenda publicada nas redes sociais do artista a descrever o álbum – “feito para movimento corporal, volume no máximo”. Li isto mesmo antes de ouvir o álbum, e logo que o ouvi, percebi o porquê.

Agora, para que conste, eu não sou a maior fã de Tyler nos arquivos – não porque tenha alguma coisa contra ele, nem alguma coisa na música dele que me desagrade, mas sim por questões estilísticas puramente relativas a gosto pessoal. Na verdade, apaixonei-me pelas canções de Tyler – depois de muita “resistência”, digamos assim, apesar de que não propositada – graças ao seu Tiny Desk concert, em que o ambiente mais intimista e “acústico”, digamos, das interpretações me fez avaliar mais profundamente a qualidade da sua escrita.

Ao longo dos anos, na minha opinião, temos visto um Tyler Okohnma sempre com muita paixão, brio e expressão naquilo que faz – e um autor que é capaz de horizontes musicais muito diferentes, como podemos verificar com a diversidade dos seus maiores hits e pelo próprio sucesso nas colaborações que vai fazendo. Tenho que admitir que, do meu lado mais classic rock, mais harmónico, a maior parte das minhas canções preferidas de Tyler vêm do seu lado mais Frank Ocean, se é que se pode chamar assim, música em que ele explora mais as suas sobreposições a nível harmónico e, também, a questão tímbrica e textural – destaca-se, para mim, e correndo o risco de ser lamechas, a sua música See You Again, do seu álbum Flower Boy, por exemplo, que chega até a explorar uma espécie de contraponto entre vozes, timbres orquestrais e sintetizadores variados, e, para além disso, sempre usando harmonia em sétimas, que traz cores incríveis a qualquer música.

A capa do novo álbum de Tyler, The Creator, “Don’t Tap That Glass”. © Genius

Esta não é caso único – até no mais recente CHROMAKOPIA há músicas que seguem este ambiente, como Like Him (ft. Lola Young). Tyler tem outro lado, no entanto, igualmente entusiasmante – um lado mais Kendrick, mais fervoroso, mais mexido, de certa forma, mas também poderoso. É o caso de músicas como Thought I Was Dead, também de CHROMAKOPIA – cujo caráter enérgico e fluidamente potente contagia milhões de fãs por todo o mundo.

Então e Don’t Tap The Glass? Em qual destes se enquadra?

Bem, nem um, nem outro, na minha opinião. Como sempre. Não há um álbum de Tyler especializado numa única matiz, o que também me fascina. Mas considero que Don’t Tap The Glass, ainda que não descolando completamente da linguagem (ou linguagens) habitual de Tyler, a envolve numa faceta nova do seu artista, um caráter mais dançável, mais homogéneo, por vezes um pouco mais Daft Punk (Em Ring Ring Ring, por exemplo) ou com um estilo mais parecido com lendas do rap mais antigas, talvez, mas, efetivamente, a sua descrição como pensado para “movimento corporal” fez sentido para mim desde o início.

No entanto, acho que é explorado um caráter mais uniforme a que não estava habituada neste artista – quer dizer, para quem estava a ouvir JoJo Mayer à espera que o álbum saísse (spoiler alert: já tinha saído e eu é que fui azelha), as beats de Tyler estavam bastante mais “organizadas” e até, de certa forma, eficazes do que o costume. Seria a diferença entre euphoria do Kendrick Lamar, por exemplo, e Another One Bites The Dust, dos Queen – no caso de euphoria, não há uma estrutura bem definida, mas sim um solilóquio contínuo e crescente (e sempre muito interessante) no discurso de Kendrick. Esta estrutura mais “livre”, ou aberta, é algo que eu adoro, sem sombra de dúvida, e o já referido Thought I Was Dead de Tyler, The Creator é outro caso disto, com um beat drop no meio do nada que inaugura um novo tema na música que aparece completamente do escuro. E, surpresa das surpresas? Esse tema é a minha parte preferida da música. De um vigor sublime.

No caso de Another One Bites The Dust, por exemplo, temos um ambiente muito diferente – temos uma base (no caso, uma linha de baixo e uma bateria propositadamente bastante simplificada dentro da estética do R&B) muito contagiante que se vai repetindo ao longo de toda a canção, assinalando uma estrutura mais definida e um caráter mais “quadrado”, no sentido de promover mais uma quadratura musical em termos de compassos. É, no fim de contas, o caso da maior parte das músicas com uma boa linha de baixo – Sunshine of Your Love – Cream, Heartbreaker – Led Zeppelin, Back In Black – AC/DC, Money – Pink Floyd, Come Together – The Beatles… a lista continua -, mas talvez o exemplo dos Queen se enquadre melhor na estética de Tyler e no uso que ele fez desta característica.

Ou seja, Okohnma acaba por explorar texturas de base contagiantes e, de certa forma, mais eficazes, cujo caráter cativante não só traz à música esse caráter mais dançável, como traz uma nova matiz ao trabalho do artista que envolve perfeitamente os outros estilos já por ele explorados. Para além disso, este álbum é notavelmente mais enérgico e, de certa forma, “divertido”, e talvez não tão complexo como os habituais trabalhos de Tyler, mas mais direto e penetrante, porventura. Explora um som notavelmente mais veranil, o que poderá justificar a escolha de marketing do álbum de o lançar de forma quase imediata à sua divulgação.

Tyler, The Creator. © 2021 Shutterstock.

No entanto, tenho que dizer que o álbum me parece menos desenvolvido e explorado do que os outros – as músicas mais longas têm, no máximo, pouco mais de três minutos, a maior parte nem aos três chega. O álbum tem um total de 10 faixas, diferindo de CHROMAKOPIA, com 14, ou até mesmo IGOR, com 12 – que é mais antigo e não é tão comprido quanto isso. O Tyler, The Creator costuma, também, ter imensas colaborações (See You Again com a Kali Uchis, She com o Frank Ocean…), e várias em cada álbum – e, no entanto, neste, nenhuma. As músicas deste álbum são energéticas, cativantes e concisas, mas isso meramente reflete o talento de Tyler que nós já confirmáramos. Mas ao ler algumas opiniões em relação a este álbum, li certas afirmações como a de que este álbum não era tão “seca”, era “felizmente” menos complexo, e que o Tyler não se perdia nos seus “devaneios desnecessários” habituais.

Não gostei muito de nenhuma delas, como poderão imaginar. Tyler destaca-se para mim, como qualquer outro artista destaca, pela maneira como explora ao máximo a sua identidade artística, e no caso específico deste compositor eu considero a complexidade habitual do seu trabalho de um incontável valor e relevância, pois é aquilo que nos transmite a identidade dele como criador, diria até que a principal característica que o define. Tirar a “complexidade” ao Tyler – que é um termo que eu não gosto para caracterizar a sua música, já agora – é tirar-lhe muita, senão toda a sua genuinidade e interesse. Enquanto que para artistas como Michael Jackson a simplicidade e transmissibilidade imediata pode ser o mais importante, porque o seu repertório e voz musical primam pelo seu caráter direto e cativante, fazer isto da música de Tyler é, um pouco, subestimá-lo enquanto artista (apesar de que fazer música com estas características é sobejamente difícil). Faz-me quase lembrar as acusações que foram feitas aos Metallica depois do lançamento do Black Album, em que foi realçado que uma banda que começou marcadamente dentro do thrash metal evoluiu para uma banda que agora produzia metal muito mais mainstream e, como consequência direta, que agradava a um público muito maior, desculpando esta mudança conveniente com uma “evolução natural no caráter musical da banda”.

Não digo que concordo nem desminto, porque a explicação acaba por ser legítima, apesar de não poder ser exatamente comprovada. Mas espero que este tipo de acusações não se torne na verdade em relação a Tyler, The Creator, pois, na minha opinião, isso seria como transformar o estilo do Kendrick Lamar no estilo que ele adota quando faz colaborações com cantores opium – como no I AM MUSIC de Playboi Carti, por exemplo (…porque é que eles metem todos o nome dos álbuns em maiúsculas?). Por muito que eu goste do Kendrick, que gosto mesmo, o opium é aquela coisa que me arde nos ouvidos, para ser sincera. E se o Kendrick Lamar passasse a fazer só opium para ter mais fãs e, enfim, ganhar umas peças a mais, eu era bem capaz de deixar de ouvi-lo (e acho que os fãs daqueles temas mais indie, estilo United In Grief, do Mr. Morale vão concordar comigo). Acabo por frisar, então, que não acho este trabalho tão desenvolvido como os outros, mas isso não é algo necessariamente mau – digamos que tem a importância de um concerto para solista, e não de uma sinfonia como os outros álbuns – mas fica a questão: será esta uma experiência para testar a adesão do público a este caráter musical diferente? Talvez isso justificasse o lançamento súbito e a desenvoltura reduzida.

Tyler, the Creator atua no Day N Vegas Hip-Hop Music Festival em Las Vegas, no dia 14 de Novembro de 2021. © Allen J. Schaben / Los Angeles Times

Tenho que afirmar, no entanto, que o álbum, como seria de esperar, tem alguns temas muito bons. E, no geral, trata-se de um trabalho bastante coeso, no sentido de não haver nenhuma canção que aborreça o ouvinte – todas mantêm, de facto, um caráter contagiante, energético e fluido. A produção deste álbum está impecável, também, o que ajudou a catapultar as músicas nele presentes. A minha faixa preferida em todo o álbum foi I’ll Take Care of You, o que porventura seria de esperar, pois talvez será a que mais segue o estilo dentro da obra de Tyler que eu referi como o meu preferido, o seu lado mais harmonicamente rico, mais melodioso, mais Frank Ocean.

No geral, um trabalho bem-conseguido, mas não deixo de sentir a disparidade para com trabalhos mais complexos do mesmo autor. As canções neste álbum são excelentes, sim, mas não poderiam ter sido distribuídas por outros álbuns, intercaladas com temas mais intrincados e singulares? Claro que é quase humanamente impossível produzir um álbum de qualidade estratosférica e completamente desenvolvido em tão pouco tempo (é nestas alturas que ficamos a pensar que os Led Zeppelin venderam a alma ao diabo, não é?). Mas este novo álbum, que me parece muito menos pessoal, excluindo os últimos três temas, e a ausência por completo de colaborações, pode ser uma alegoria para a privacidade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional que o artista não tem conseguido assegurar para si próprio, o que o pode ter levado a tomar este novo rumo em termos de estilo, em que está, de certa forma, menos “exposto” – o próprio título do álbum pode ser interpretado como uma referência a esta situação, em que o artista se sente “preso” numa jaula de animais, e o título de “não tocar no vidro” refere-se ao pedido para que a imprensa pare de o observar constantemente.

As canções de Tyler trazem-nos sempre algo novo, algo de singular, mas acima de tudo, algo que é sempre dele, e enquanto que não me desagrade de todo o estilo deste álbum, não queria que Okohnma descurasse a sua originalidade, a voz musical que é completamente sua, em prol de um ideal musical externo àquilo que sempre o caracterizou.

Tyler, The Creator, na cerimónia de revelação da estrela de Charlie Wilson no Hollywood Walk of Fame, em Los Angeles, California © Michael Buckner/Variety via Getty Images.

Portanto, uma nova faceta de Tyler, The Creator, ou assim espero que o seja, mas condensada num só trabalho de forma a que o faz parecer, de certa forma, menos dele. Pois talvez seja essa uma das palavras que melhor caracterizam os seus álbuns – multifacetados. Se, como eu espero que aconteça, esta nova matiz do artista for estando presente nos seus próximos álbuns (porém não na totalidade dos mesmos), acho que tal será algo interessante de ver, dado que este disco já deu provas de que o Tyler é mais que capaz de escrever os chamados “bangers” neste estilo. Estou a ser sincera quando digo que realmente gostei do trabalho, e que não há uma música no álbum que se passe à frente – se eu nunca tivesse ouvido Tyler, The Creator antes, com certeza que ouviria este álbum e ficaria fã dele instantaneamente. Mas o Tyler Okohnma maluco pelos sintetizadores, o Tyler das doces linhas vocais femininas a complementar a voz, o Tyler das estruturas musicais fora da caixa, o Tyler de um lirismo apaixonante… esse Tyler, esse Tyler “complexo” que eu tanto gosto tem de ficar, apesar de tudo. Não afogando o Tyler “dançável”, mas complementando-o. Don’t Tap The Glass foi bom para testar uma nova estética, e é uma boa audição, sim – que eu até recomendaria, em total honestidade -, mas Tyler não se pode limitar a isto, porque um Tyler apenas “dançável”, que atenua a sua singularidade com este novo “casaco musical”, digamos assim (de maneira super deselegante, mas abafemos essa parte), é um Tyler que, para mim, não me soa a completo.

Não deixa de ser, no entanto, um trabalho com mérito, e cuja estética espero voltar a ouvir no futuro realizada por este artista! Mas o que eu espero ainda mais é que Tyler, The Creator tire agora uma pausa da sua corrida aos lançamentos louca (já parece os Led Zeppelin e os seus quatro primeiros álbuns com títulos extremamente criativos) e nos traga trabalhos novos mais desenvolvidos, com mais colaborações, e com uma sonoridade cada vez mais única. Porque vamos a ser sinceros, se o Playboi Carti pode deixar os fãs à espera por alguma coisa de novo por número de anos à la carte, (ainda por cima para ouvir opium… credo, coitadinhos), acho que o Tyler pode tirar uns mesinhos a mais para trabalhar em álbuns mais completos, autênticos e bem-guarnecidos 🙂

E ficamos por aqui com a nossa primeira crítica a um álbum aqui no blog! Como sempre, boas leituras e ainda melhores audições 😉

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