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No passado dia 7 de fevereiro, tomaram lugar na mais recente edição do Festival Porta-Jazz dois dos que seriam, talvez, dos mais aguardados concertos em todo o programa: ouviríamos, pois, o mais recente álbum do pianista e compositor português Pedro Neves, Northern Train (com carimbo Porta-Jazz), apresentado pelo quarteto do pianista, e, após este concerto, uma comissão da própria associação Porta-Jazz – o trabalho “Go Tell It On the Mountain”, da autoria de Zé Stark: uma profunda e rica reflexão reminiscente do clássico de James Baldwin.

Pedro Neves Quarteto e o Ensemble Mutante de Zé Stark no Bloco 4 do 16º Festival Porta-Jazz. © Minima

O concerto de Pedro Neves, acompanhado por Nuno Campos no contrabaixo, Javier Pereiro no trompete e José Marrucho na bateria, apresenta-se imediatamente como uma viagem sonora, como sugere o próprio título do álbum, Northern Train – trata-se de uma viagem de comboio, por entre vales e planícies cobertos de neve. No entanto, aquilo que vivenciamos é uma viagem extremamente particular: enquanto a “viagem” ao longo de todo um álbum será um conceito já minimamente consideravelmente presente na música jazz atual, este é, na verdade, um conceito que, ainda que perene, manifesta-se nos mais variados formatos e medidas. Num concerto de Amaro Freitas, por exemplo, a viagem que fazemos, muitas vezes, será por entre meios naturais e oníricos, em que assistimos ao passar dos dias e das estações. Já numa viagem de um concerto de Joep Beving, por exemplo, saindo um bocadinho da lupa do jazz mas não do piano, a viagem será a um tempo ido, a uma memória antiga que guardamos dentro de nós, como que um momento de serenidade e candura que se mantém em segurança num baú inviolável.

Pedro Neves no Bloco 4 do 16º Festival Porta-Jazz. © Minima

A viagem de Northern Train, e isto é o que me interessa em particular na concepção programática deste álbum, é uma viagem dupla – ouvimos a viagem do comboio, sim, viajamos por dentro do comboio, conhecemos os seus recantos e particularidades, mas ouvimos também um sujeito lírico que faz esta viagem dentro do comboio. Ouvimos a sua esperança, a sua ânsia, o seu entusiasmo doce e sereno, as suas incertezas e expectativas, a satisfação pura, benevolente e paciente de perseguir um sonho, um passo de cada vez. Estes são dois mundos que se misturam e que nunca se separam um do outro, por todo o álbum. O sujeito musical e o comboio fundem-se num, a perspetiva mudando ocasionalmente, para formar um retrato vivo e colorido da ideia pretendida – um que não se preocupa em dar-nos respostas se não as que nos suscita conferir-lhe.

Pedro Neves Quarteto no Bloco 4 do 16º Festival Porta-Jazz. © Minima

A nível musical, acho justo começar por dizer que a música de Pedro Neves, apesar de, porventura, não ser jazz que etiquetas mais restritivas imediatamente apelidassem de avant-garde – como seria, talvez, Tigran Hamasyan ou Alfa Mist -, é especial e, sim, inovadora e atual de uma maneira discreta, porém sobejamente bela e interessante. Utilizando grooves muitas vezes inabituais e descolando do swing tradicional, o pianista e compositor faz um jogo impressionantemente bem equilibrado a nível harmónico, construindo progressões que balançam perfeitamente entre um caráter inesperado e, ao mesmo tempo, coeso – o resultado é uma música que se manifesta envolvente e permeante, porém ao mesmo tempo cativante e agradavelmente surpreendente. Sem, no entanto, alguma vez perder a atmosfera de confortabilidade e sereno contentamento que nos preenche durante todo o concerto.

Este sentido de equilíbrio entre coesão e surpresa não é atributo apenas da harmonia, mas sim transversal a todos os aspetos musicais – destacaria o campo melódico, em que é claro o lirismo magnífico de que está imbuída esta música, mas também os saltos melódicos que vão aparecendo ao longo da música, abrindo-a e realçando a luminosidade da harmonia, que não é uma luz extravagante ou “beckiana”, mas sim encantadora e refrescante. No entanto, as linhas melódicas são arquitetadas com extremo cuidado e interpretadas com um cantabile maravilhosamente pleno – aqui, gostaria de destacar o feat de Nuno Campos num dos temas do álbum com uma linha melódica no contrabaixo (tocada com arco), pelo seu caráter notavelmente poético.

Nuno Campos (Pedro Neves Quarteto) no Bloco 4 do 16º Festival Porta-Jazz. © Minima

Finalmente, há que realçar a diversidade de ambientes que este álbum vai tecendo, que realmente é a principal responsável pelo dinamismo e vivacidade que tornam este álbum tão vasto em significado, mas também, curiosamente, faz realçar o sentimento fundamental em que o álbum cresce pelo próprio afastamento, ou melhor, ramificação da própria ideia central em si – ouvimos talvez um dos grooves mais viciantes do álbum em Engine Room, uma harmonia algo mais fusion em temas como Dreams and Plans, e o intimismo e melodismo deste álbum no seu máximo apogeu em Too Shy ou Winter’s Lament. É uma exploração multifacetada de uma imagem sobejamente poética, em que a música nos mostra que existem facetas e caminhos intermináveis, incontáveis, e, acima de tudo, memoráveis a seguir.

Pedro Neves Quarteto no Bloco 4 do 16º Festival Porta-Jazz. © Minima

Seguimos com o concerto de Zé Stark e o seu “Go Blame it On The Mountain”, com um ambiente radicalmente diferente daquele que ouvimos no concerto anterior. Ouvimos grooves eletrizantes, um ambiente que vai buscar bastante ao jazz fusion, e uma originalidade que é sempre abundante e relevantíssima.

O Ensemble Mutante de Zé Stark no Bloco 4 do 16º Festival Porta-Jazz. © Minima

O que este concerto me fez lembrar imediatamente foi John Coltrane. Mas não por ser algum Giant Steps – longe disso – a própria formação instrumental escolhida, com flauta transversal, saxofone alto, piano, bateria e percussão, imediatamente conferiu à música um timbre que não pude deixar de associar à fase mais experimental e espiritual de Coltrane, o seu retorno à carreira em que explorou as mais variadíssimas influências culturais e étnicas, de onde resultaram discos como A Love Supreme, Meditations ou Om.

A música de Zé Stark, efetivamente, transbordava destas influências étnicas e da música dita “do Mundo” (se bem que quem costuma acompanhar o blog já saberá que não sou a maior fã desse termo), encapsulando na perfeição a jornada espiritual e cultural afirmada pelo artista nas notas de programa. Tornou-se vital para a música o seu caráter por vezes quase “tribal”, de forte influência da etnomusicologia africana e da América Latina. Afirmava, no entanto, também, uma visão que, sinceramente, esperaria de um baterista/compositor, mas que me surpreendeu pela sua singularidade – a música de Stark reafirma a velha máxima de que o elemento mais importante no jazz é o ritmo. Enquanto que este seja facilmente ofuscado pelas belíssimas e intrincadas harmonias que caracterizam o jazz, a música deste compositor demonstra, precisamente, a importância magistral que o ritmo tem no género, e cujo poder criativo e performativo é incomensurável.

O Ensemble Mutante de Zé Stark no Bloco 4 do 16º Festival Porta-Jazz. © Minima

Como já deve ter ficado bem claro, as claves rítmicas utilizadas nos vários temas foram formidavelmente contagiantes – no entanto, as adições às claves feitas pela percussão (de que eram constituintes um triângulo e vários instrumentos de percussão que me pareceram de origem latino-americana), não só enriqueciam a sonoridade com um timbre muito mais detalhado e interessante como tornavam ainda mais enérgico e simplesmente delicioso o cariz já de si viciante da música. Não posso deixar de referir, também, aqui uma nota de apreço pelos solos estonteantes realizados pelos intérpretes de sopros, que foram pura e simplesmente impressionantes.

Fernando Brox e Lucas Oliveira (Zé Stark/Ensemble Mutante) no Bloco 4 do 16º Festival Porta-Jazz. © Minima

Terminamos, então, o que foi um bloco riquíssimo e sobremaneira diversificado a nível musical, que me deixa com a feliz certeza não só do auspicioso futuro que tem o jazz português, mas sim do meticuloso trabalho que a Associação Porta-Jazz tem feito em promovê-lo –  dois concertos muito diferentes mas igualmente memoráveis, e que serão, certamente, uma dose a repetir!

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