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No passado dia 8 de Março, subiu ao palco da Sala Suggia da Casa da Música o exfusiante Avishai Cohen Quintet, dominado por uma energia vibrante e portentosamente presente na música do afamado contrabaixista e compositor. Acolhendo o mais recente trabalho de Cohen, Brightlight, os músicos que a ele se juntaram neste concerto demonstraram uma musicalidade e potencial artístico inegáveis, emoldurando com criatividade, espontaneidade e exploração constante o contrabaixo de Avishai, sempre exímio quer a nível de execução, quer expressão.

Uma das primeiras características que denotamos na música de Avishai, e uma que lhe tem vindo a ser apontada pela crítica em já várias ocasiões, constitui-se na sua complexidade a nível de métrica de compasso – esta é claramente perceptível, mas é articulada de uma maneira que é apenas complicada na partitura, e não ao ouvido. Aliás, como no quadro geral da arte de Cohen, estas métricas desafiantes são utilizadas não como artifício, mas sim com uma intenção e pessoalidade transparentes e um sentido de frase que é pródigo em tornar a união das várias métricas coesa e refrescante.

Esta característica torna-se, também, responsável por um certo sentido de “imprevisibilidade” que a mantém cativante e fresca ao ouvido, caráter este que é adensado pela energia vivaz e poderosa de todos os intérpretes – fulcral numa música como esta que, em grande parte, dela vive e por ela é muito enaltecida.

Avishai Cohen Quintet na Casa da Música. Foto © Revista Viva! Porto.

Diria que em Brightlight o elemento mais importante de todas as dimensões musicais é o groove – como aliás, se verifica em vários outros artistas de jazz fusion, como seria o caso de James Brandon Lewis, por exemplo – esta música vive não necessariamente de uma energia de forte intensidade ou andamento, mas sim de uma clave rítmica contagiante e que se mantenha relevante ao longo de toda a interpretação. Esta prioritização da clave rítmica em detrimento de uma base harmónica mais cheia ou definida permite que esta última se torne muito mais exploratória e criativa, o que acaba por adicionar muito mais cor aos temas de Cohen precisamente pelas possibilidades que abre aos demais músicos em palco.

A energia potente e exacerbada de que todos os músicos do quinteto partilham parece, de facto, ser uma constante que Avishai procurou ao escolher as jovens promessas a quem deu a oportunidade de integrar o quinteto. Destes elementos – e desta vez acho que não estou a ser ativista da defesa internacional dos pianistas indefesos – tenho que destacar a capacidade musical completamente estonteante do pianista Itay Simhovich, cuja expressividade e criatividade o faziam improvisar de forma simplesmente impressionante.

Cada solo deste músico possuía a integridade e relevância musical de um excerto musical que poderia ser todo um outro tema – ao contrário de solos baseados em frases bem construídas, outros com bom desenvolvimento motívico ou bem-conseguidos a nível técnico, os solos de Simhovich destacavam-se por ter sempre algo para dizer, este algo portando uma integridade e boa-construção tais que se assemelhava ao nível de reflexão de uma composição escrita. A capacidade do pianista de criar uma expressão musical deste calibre em tempo real é uma que me parece, de facto, insuficiente apelidar de fenomenal.

Avishai Cohen Quintet na Casa da Música. Foto © Revista Viva! Porto.

Em relação ao próprio líder do quinteto, Avishai Cohen, ouvi-lo tocar é aperceber-se do trabalho meticuloso por detrás da sua mestria, desde a entoação a nível de afinação irrepreensível até ao seu som cheio, redondo e portentoso, que retira do instrumento com uma reverberação que chega quase ao nível de uma guitarra. Isto é crucial para a multidimensionalidade e capacidade melódica louváveis que o artista traz ao papel do contrabaixo – cuja proficiência e exploração é tal que chega a fazer uso de técnicas estendidas como a percussão no corpo do instrumento, característica do estilo flamenco de guitarra perpetuado por artistas como o polaco Marcin Patrzałek.

Avishai, tal como outros famosos contrabaixistas bandleaders como Charles Mingus, não parece ter como preocupação principal trazer o contrabaixo um papel “principal”, mas sim elevar o seu papel de suporte rítmico/harmónico ao mais expressivo, enriquecedor e musicalmente denso possível – acaba por ser, no fim de contas, este papel tão bem executado um dos principais responsáveis por que a música adquira tantas possibilidades improvisatórias e criativas.

Será importante mencionar, também, uma das características mais importantes na música deste concerto – a maneira interativa como Avishai complementa e dialoga com os outros músicos, algo de inédito para mim e que conferia à música todo um novo patamar de pormenor e, por consequência, a tornava ainda mais especial. Aliás, esta característica no contrabaixo de Cohen fez-me relembrar de uma eterna lenda do jazz fusion, Herbie Hancock, que afirmava que o jazz é a mais pura das formas de arte por ser uma conversa constantemente afetada pela partilha de energia quer entre os músicos, quer entre músicos e público.

A maneira como o contrabaixista vai imbuindo a música de pequenas citações aos seus colegas ou respondendo às frases que vão criando, acompanhando-os de forma altamente personalizada e atenta, cria um sentido de união a nível musical que a faz articular-se de forma muito mais fluida e detalhada, e pega nas ideias que retoma e desenvolve de forma notavelmente bem-escolhida e simplesmente encantadora. A magia do comping de Avishai acaba por prender-se bastante com esta ideia: trata-se de um músico que ouve na sua plenitude os músicos com quem toca. Esta preocupação clara com conjugar-se com o que o rodeia cria um ambiente de partilha verdadeiramente belo, e acabou por ser um dos detalhes que mais me surpreendeu e ensinou em todo o concerto.

Avishai Cohen Quintet na Casa da Música. Foto © Revista Viva! Porto.

Vale a pena acabar, também, por referir que Avishai Cohen é um improvisador nato. A sua preocupação com sonoridade e afinação são a cereja no topo do bolo de um lirismo e melodismo que manifesta no contrabaixo de forma absolutamente deleitosa. Pouquíssimo ou nada daquilo que faz num solo é um mero artifício técnico ou um lick para “tapar um buraco”. Ouvimos, sim, passagens de uma consciência musical exorbitante e de uma intuição musical inata que é simplesmente extraordinária.

E este foi um dos raros artigos em que acabei por falar mais dos músicos em palco do que do aspeto composicional em si – algo que um leitor mais atento aqui do blog já saberá ser um sinal de que se tratavam de músicos formidáveis. Resta-me deixar aqui uma nota de apreço por um concerto que, acima de tudo, se manteve sempre cativante e sem dúvida nos abre novas perspetivas e abordagens ao jazz, improvisação e construção musical.

Como já vem a ser costume, despeço-me com alegria por ter tido a oportunidade de vivenciar um concerto tão vivo e enriquecedor – muito boas leituras e ainda melhores audições 🙂

Avishai Cohen Quintet na Casa da Música. Fotos © Revista Viva! Porto.
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