Ao longo das suas já extensas e variadas edições, o Ovar em Jazz tem sido um festival marcado pela sua abertura e diversidade e, também, pela celebração da variedade, frescura e vanguardismo do jazz como o género vibrante, frutuoso e efervescente que é e foi ao longo de toda a sua história. E, neste mais recente programa que agora verificamos alinhavado e preparado para nos surpreender, parece ser esta “máxima” tão característica do Ovar em Jazz que vemos ecoada no próprio mote que foi escolhido: o Jazz sem Fronteiras.
Este próprio título é sugestivo, pois o jazz, apesar de poder possuir imensas “regiões” ao olho de quem as queira ver, será, porventura, o género mais “aberto” e sem barreiras que existe – se há algo que podemos retirar de festivais de jazz contemporâneo como o próprio Ovar em Jazz é que, tal como não existe uma definição que seja completamente estanque, ou talvez sequer objetiva, de Arte, não há um limite visível, ou sequer alcançável, a partir do qual algo não se considere jazz – enquanto que talvez, à época do seu nascimento, o jazz pudesse ser compartimentado com as suas características principais, ou simplesmente as mais díspares e inovadoras que veio trazer em relação à música clássica e música ligeira então vigentes, acabou por ser o seu espírito de criação, liberdade imaginativa e inovação e ousadia constantes que ditaria, efetivamente, a sua principal e, não posso deixar de dizer, verdadeiramente apaixonante essência. No Ovar em Jazz, esta frescura e motivação experimentalista são assíduas e já foram trazidas a palco por artistas como o ensemble L.U.M.E. (que eu, pessoalmente, associaria mais à onda do free jazz), Abe Rábade com o seu trabalho “Botánica”, Tigran Hamasyan com um concerto inesquecível na edição do ano passado do festival, entre tantos outros nomes nacionais e internacionais que tão bem pontuaram e atestaram a versatilidade e vitalidade do jazz como género.
Tigran Hamasyan e Abe Rábade nos seus concertos no âmbito do festival Ovar em Jazz. Fotografias © Ovar Cultura e Ovar News, respetivamente.
Mais do que jazz sem fronteiras a nível demográfico – o que talvez seja a perspetiva mais atual e “pertinente” dado o contexto geopolítico que atravessamos no presente, e a principal razão a motivar esta escolha – o repertório escolhido para apresentar este ano parece cumprir esta “proposição” pela escolha de um alinhamento que nos traz uma enorme diversidade de abordagens ao jazz e à improvisação, permitindo-nos verdadeiramente caminhar “até aos confins” do género e ainda mais além, quer a nível estilístico, quer em influências, quer nos mais variados formatos de ensemble.
Abriremos o festival com o quarteto da cantora brasileira Anna Setton, que interpretará trabalho focado na música característica do seu país-natal – ouviremos, portanto, não só uma linguagem que está sobeja e densamente ligada ao jazz desde a sua “introdução” mais impactante com o Getz/Gilberto, álbum que foi um dos marcos mais profundos da adoção da MPB em solo americano e símbolo de uma corrente brasileira no jazz que agora lhe é inalienável, como música fortemente influenciada por um dos elementos-chave que, aliás, protagoniza outro festival ovarense (Festa): a lusofonia.
Propaga-se, portanto, com este concerto a tradição distintiva da expressão cultural no concelho ovarense da música lusófona, incluindo a MPB que tem vindo a ser representada por artistas como Ivete Sangalo ou, mais recentemente, Juliana Linhares (sem esquecer Amaro Freitas no próprio Ovar em Jazz, mas sem tanto caráter estilístico da música tradicional brasileira) – uma escolha que, efetivamente, fazia falta no alinhamento do programa por ser uma celebração de um ramo do jazz que é tão relevante e patente como um dos seus subgéneros.
Seguimos com o quarteto de Carlos Bica, dando continuidade à intenção da organização do festival de oferecer destaque e projeção ao jazz nacional. No entanto, este nome foi, de facto, um dos que mais me entusiasmou ao observar o programa pela primeira vez, por ver, de alguma forma, um paralelo com esta “fusão” inconsútil e sempre muito genuína com música tradicional. Curiosamente, este é explorado por artistas como a cantora Maria João Grancha, que subiu ao palco do Ovar em Jazz na sua edição mais recente para nos brindar com música imbuída de maneira subtil, porém autêntica, das suas raízes moçambicanas, e que colaborou, também recentemente, com este contrabaixista que agora teremos a oportunidade de ouvir.
Carlos Bica. Foto © Dovile Sermokas.
É o espírito do Ovar em Jazz de conferir oportunidades a novos talentos que nos traz o primeiro concerto no bar do CAO desta edição do festival – conduzido pelo quarteto Mantis, e, pela segunda vez, pontuado por uma gravação ao vivo do programa Notas Azuis (Antena 3), assinado pelo cronista e repórter musical Rui Miguel Abreu. Papel este que foi desempenhado, no ano passado, pelos irreverentes YAKUZA, artistas emergentes nacionais, poderemos esperar, nesta edição, novamente uma abordagem muito própria e inconvencional (no melhor sentido do termo), e, esperemos, tão fervorosa e enérgica como a sua antecessora a ser demonstrada por novos talentos a surgirem no panorama jazzístico português – outra missão do festival, e muito louvável, de divulgar e dar palco aos futuros donos do jazz nacional.
Para o primeiro concerto do festival em se abrirão as portas do Auditório do Centro de Artes de Ovar em toda a sua dimensão, temos uma escolha inusual – e, por vários aspetos, interessante – trata-se de Marius Preda, músico romeno e virtuoso do címbalo cujo disco mais recente, que trará ao festival, é um compêndio, ou melhor, de certa forma a súmula, dos seus já 30 anos de carreira. Teremos mais uma “fronteira”, de certa forma, a ser quebrada no jazz por um aspeto que imediatamente nos salta à vista: o próprio instrumento de Preda, que não podia estar muito mais longe da instrumentação clássica de um ensemble de jazz tradicional. Este incorporar de instrumentos do folclore do país de origem no jazz é algo que já não é, de todo, desconhecido do panorama jazzístico internacional – talvez um exemplo igualmente conhecido deste mesmo fenómeno seja o libanês Rabih Abou-Khalil, virtuoso do oud, instrumento tradicional do seu país, que tem dado concertos, já em múltiplas ocasiões, em Portugal – notavelmente no festival Campus’ Jazz, acompanhado da Orquestra Filarmonia das Beiras. É, portanto, mais um aspeto em que o jazz se estende sem limites, e, principalmente por se tratar de um instrumento de percussão, estou bastante curiosa pelo resultado musical do destaque dado a este instrumento – quer a nível tímbrico, quer estrutural.
Completando a programação para este dia, ouviremos ainda o mais recente álbum do baterista ovarense João Martins, Oxímoro – um trabalho que tem já passado por vários palcos do jazz português, incluindo a edição deste ano de outro importante festival de jazz contemporâneo do nosso país – o Festival Porta-Jazz. Será interessante não só ter um músico “da casa” a passar por este palco mas também revisitar no seu ensemble alguns músicos que já tiveram a oportunidade de atuar no Ovar em Jazz – como é o caso de Nuno Trocado, na guitarra.
João Martins na 16ª Edição do Festival Porta-Jazz. Foto © Mínima Música & Arte.
Para além de vários dj sets da autoria de Rui Miguel Abreu e João Palavra (o último como parte do projeto dISCOSLAGENS) que pontuarão este e o seguinte dia do festival, no último dia do Ovar em Jazz ouviremos o quarteto Fourward, novamente uma aposta no jazz português e uma que trará ao festival novamente o seu objetivo de “não ter fronteiras” – aliás, a maneira como o próprio grupo se descreve como “outsiders” é um forte presságio de uma frescura e “rebeldia” no seu sentido mais inovador que fazem com que o jazz cada vez mais cresça pela sua habilidade e versatilidade em deixar-se influenciar por virtualmente todos os géneros de música: influências que este ensemble parece acolher de forma curiosa e eletrizante.
Terminamos com o último grande concerto da edição deste ano do festival a ser protagonizado pela Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal, acompanhada do saxofonista americano John O’Gallagher. Como uma espectadora assídua do Ovar em Jazz há cerca de 3 anos, não diria que esta grande formação seja algo propriamente “rotineiro” no alinhamento do festival, pelo que fico bastante entusiasmada pelo resultado – principalmente por se tratar da orquestra de um dos estabelecimentos pioneiros do ensino do jazz em Portugal, e uma que já formou tantos nomes que passaram pelo Ovar em Jazz ao longo dos anos (recordo-me, mais recentemente, do concerto no bar do CAO de Eugénia Contente, por exemplo). O saxofone de John O’Gallagher como solista será também, com certeza, um dos pontos altos do festival, pois a combinação entre saxofone solista e orquestra é uma que consegue ser extremamente fortuita – como nos provou, por exemplo, Ben Wendel com a Orquestra de Jazz da UA na edição do Campus’ Jazz no ano passado – sendo o saxofone um instrumento deveras ágil e consideravelmente amplo em termos de registo (o que lhe traz, no contexto do jazz, capacidades técnicas preciosíssimas para a sua linguagem improvisatória), torna-se um instrumento que, apesar de tudo, oferece uma capacidade harmónica bastante satisfatória sem perder o seu caráter poderoso como instrumento melódico e de destaque. Ora isto parece-me, a mim, a chave para uma fusão fortuita com o formato que o Ovar em Jazz agora nos sugere, e uma que com certeza será um dos momentos mais memoráveis em todo o programa da edição deste ano.
O Ovar em Jazz deste ano contará, também, com algumas novas iniciativas a que com certeza valerá a pena deitarmos o olho (e o ouvido ;)): teremos uma mostra de vinil jazz denominada Pop-Up em exposição no dia 11 de abril e, para além disso, o festival encerrará com o Ovar Jazz Collective, ensemble formado exclusivamente para esta ocasião e focado na missão do festival de valorizar o talento local. Este será dinamizado e orientado por João Martins, e o culminar do festival será, precisamente, o resultado deste novo projeto.
John O’Gallagher e a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal. Foto © Márcia Lessa.
Finalmente, num gesto analítico muito breve, creio que o que podemos inferir da programação deste ano é uma certa vontade de “aproximação” a outros festivais de jazz da zona no sentido da diversidade da programação (ou melhor, para honrar o tema desta edição, as fronteiras com que se pretendem cruzar) – algo que é observável na busca por projetos que piscam o olho à etnomusicologia, bem como outros que vão buscar ensembles de tamanhos muitos diferentes – desde um quarteto como o de Carlos Bica, até a uma orquestra inteira como a do Hot Clube. Isto reflete, na minha opinião, um muito feliz crescimento e afirmação do festival no panorama português, o que justifica este “ajustamento” ao paradigma do que vai sendo praticado por outros festivais em redor, e que creio que só acrescentará qualidade e complementará de forma enriquecedora o desenvolvimento do festival. Não obstante, o Ovar em Jazz continua a parecer-me um festival de jazz com um cariz e personalidade muito próprios, com objetivos e missivas que reinam sempre inabaláveis e escolhas artísticas que reforçam uma identidade cada vez mais inconfundível.
Será, portanto, um festival onde teremos muito por que esperar e ouvir (e podem esperar muitas e novas coisas sobre ele também aqui no blog…), e, como é claro, mais do que boas razões para conviver, partilhar e viver a música e o Jazz – uma ação e uma vivência que é como uma melíflua canção que nunca está completa.
…E depois deste meu iluminado finalzinho piegas, aproveito para referir que deixo a programação completa do festival para a vossa devida análise e degustação já aqui em baixo, juntamente com as cabíveis hiperligações para as sinopses de cada espetáculo no Ovar/Cultura. Da minha parte, já sabem o que me resta desejar-vos: boas leituras e ainda melhores audições (que, se tudo correr bem, desta vez hão-de ser jazzísticas) 🙂
Ovar em Jazz '26 - A Programação Completa
Todos os concertos e projetos da edição deste ano do festival Ovar em Jazz, com as respetivas datas, local e detalhes. Todas as sinopses apresentadas são retiradas do Site Cultural de Ovar (© Ovar Cultura).

Um concerto que cruza subtileza melódica, elegância rítmica e uma forte identidade artística.

Um momento de maturidade criativa no panorama do jazz nacional.

Este espetáculo é, acima de tudo, um convite a entrar nesse universo onde o jazz é ponto de partida, mas nunca ponto de chegada.
Gravação ao vivo do programa Notas Azuis, da Antena 3. Sob curadoria de Rui Miguel Abreu, a sessão acompanhará o concerto de Mantis e explorará as ligações entre jazz, eletrónica e novas linguagens urbanas, cruzando conversa, escuta e performance.
Um momento que amplia o festival para o território da rádio e da reflexão musical.

Entre influências folk, clássicas e jazzísticas, o músico revela uma impressionante versatilidade e uma linguagem sonora singular, numa viagem intensa pelas múltiplas cores do seu percurso artístico.

Um concerto de proximidade onde experimentação, risco e liberdade musical assumem protagonismo.





Um encontro entre tradição e modernidade que celebra a herança do jazz e a sua permanente reinvenção, ligando a história do jazz português ao pulsar criativo internacional.

Entre groove, improvisação e construção coletiva, o projeto articula formação e performance, afirmando o talento local num momento de celebração artística e identidade territorial.

Ovar em Jazz '26
Centro de Artes de Ovar | 8 a 11 de Abril de 2026



