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Para quem estava à espera de um bom nu jazz, post-bop ou até mesmo um pouco de acid, chega ao concerto de Lana e percebe que vai ter um pouco de tudo – o álbum de estreia da artista, Dimensions, que é apresentado neste concerto, é um bom potpourri de estilos a funcionar de maneira completamente livre. Digo isto pessoalmente, que estava à espera de um free jazz valente e, logo no primeiro tema, a linha da bateria e contexto harmónico trouxeram-me lá do fundo do poço uma banda completamente diferente – Charlie Brown Jr.

É um trabalho que destaca bastante evidentemente essa natureza rockeira a nível rítmico, nos próprios padrões a nível de bateria, ou secção rítmica, e no tipo de batidas que usa, acirradamente presentes neste género. E, no entanto, o contexto harmónico é reminiscente de linguagens como a linguagem pré-The Bird of a Thousand Voices do Tigran Hamasyan, por exemplo, visível em álbuns como The Call Within (2020) ou até mesmo em algumas faixas de Mockroot. Curiosamente, no início do concerto, faltava-me um pouco as linhas melódicas simples e primárias que o artista arménio desenvolve no seu trabalho mais recente, uma vontade que foi satisfeita mais à frente no concerto – e de forma bastante interessante.

Este caráter que vai buscar um pouco ao acid jazz e consegue ser mais ousado e recôndito do que muitos que já são originais torna a música muito berrante, principalmente quando agrupado com o timbre em específico dos sintetizadores de Lana. Esta sonoridade, agrupada com as progressões de acordes concedidas a esta dimensão instrumental, traz-nos uma faceta muito curiosa que nos faz lembrar o som de Tyler, The Creator, principalmente em IGOR ou Flower Boy, Frank Ocean, ou até mesmo Kanye West nalgumas faixas de Graduation.

Lana Gasparøtti no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Ainda no ramo dos sintetizadores, o seu timbre é muito galáctico, e, no entanto, o facto de surgirem como preenchimento harmónico, quase, faz os papéis do power trio de Lana estarem muito mais equiparados, o que realmente alumia o trabalho dos outros instrumentos e torna a música muito mais, lá está, dimensionada – isto porque, para esta disposição, torna-se necessária uma componente instrumental que seja relevante em cada parte individual, não havendo lugar para secções ou hierarquias (um verdadeiro desafio, portanto, e muito bem conseguido).

E, no meio disto, algo que também é interessante é a maneira como Lana repete o seu material, porém sem o tornar monótono, o que é uma boa jogada e vital para manter o ouvido atento – apesar de os motivos não serem exatamente líricos, pelo seu voice leading e variação a nível de extensões utilizadas, o padrão repetido mantém-se curioso para o cérebro precisamente pelo seu gosto em encontrar o duplicado, e no entanto não fica obsoleto para o ouvido por se transformar ligeiramente, principalmente devido às sobreposições harmónicas. Os solos de synths, quando aparecem, são sempre psicadélicos e ligeiramente futuristas, com aquela textura glitchy que transparece na música da artista, e, surpreendentemente, parecem ir buscar um pouco ao sentido de frase extremamente livre que encontramos na voz feminina em temas como The Great Gig In The Sky dos Pink Floyd, ou até mesmo 4:44 do Jay-Z.

Lana Gasparøtti no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

À medida que o concerto progride, começa a ser aparente o leque enorme de estilos fundidos na criação deste som tão particular e inimitável – denota-se um sabor a R&B, disco, acid jazz, hip hop, rock, até mesmo eletrónica. A música é construída de forma extremamente pouco óbvia, apenas tendo a secção rítmica como fio condutor, o que me faz lembrar a criatividade de Eugénia Contente, de certa forma. Os papéis eletroacústicos são feitos ao estilo de Portishead, no sentido de serem manipulados para fazer parte de uma linha rítmica viciante e bem-definida, que realmente fica na cabeça. Para além disso, as combinações das mesmas com a base rítmico-harmónica, principalmente no princípio de cada canção, são combinadas de forma engenhosa com as restantes partes instrumentais para construir um efeito coeso e rico como o de “Money” ou “Time”, do grande Dark Side of The Moon, dos Pink Floyd. Enquanto que ritmicamente complexa, a junção é articulada de forma bem acentuada, criando uma dimensão mais ampla e singular que predispõe o ouvido para o conteúdo mais melódico que se segue.

Quanto mais avança o concerto, mais dançante a música se torna, cada vez mais adota um ambiente que quase nos faz esquecer que estamos num concerto e não numa discoteca – e isto é, de facto, impressionante precisamente pela complexidade da sua música: Lana usa ritmos intrincadíssimos, às vezes até mesmo polirritmos (tinha que ser jazz, não é?), até chega a quebrar o tempo mesmo antes de introduzir o beat drop e, mesmo assim, consegue manter a música “dançável”, principalmente pelo uso inteligente das claves rítmicas sempre penetrantes. Os motivos melódicos são, também, desenvolvidos de maneira muito particular – quase num sentido mais “dodecafónico” do que propriamente “tonal”. Não feche o separador a achar que eu sou tola, caro leitor – eu posso (tentar) explicar: a harmonia da música da artista baseia-se muito mais na sobreposição de intervalos do que propriamente na construção de acordes. Uma das canções, até, tinha uma construção harmónica que era idêntica à progressão inicial de “Kashmir”, dos Led Zeppelin. Este tipo de junção leva-nos a paradigmas muito mais progressistas e abertos, que podem tanto cair no modal, como na escala alterada (entre tantos outros), mas sempre de maneira orgânica e sem barreiras.

Lana Gasparøtti no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Este tipo de construção é, também, ideal, para fundamentar aquela igualdade na hierarquia dos papéis de que falámos antes, precisamente por permitir que a linha vocal de Lana não se sobreponha a tudo o resto, relegando a camada instrumental para segundo plano. Relembra-nos, até, um pouco, o caso de SAMALANDRA, com voz feminina, precisamente, ou neste âmbito mais polifónico mas sem o conjunto instrumental deste power trio, o João Mortágua Trio.

Lana Gasparøtti no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Em conclusão, um som jovial, desgarrado e feérico, mas acima de tudo isto – extremamente colorido. Só foi pena ainda não haver mais discos para ouvir 🙂

E agora, chega àquela coda final… como não podia deixar de ser, muito boas leituras e ainda melhores audições 😉

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