Skip to main content

Caríssimos leitores, a primeira coisa que tenho para vos dizer é que ontem passei uma noite simplesmente fenomenal. Isto porque subiu ao palco do CAO, no âmbito do festival Ovar em Jazz, o mais recente trabalho discográfico do contrabaixista, compositor e bandleader português Carlos Bica, nome paradigmático do jazz nacional, belissimamente acompanhado pelo vibrafone de Eduardo Cardinho, guitarra de Gonçalo Neto e saxofone de José Soares.

E tenho que começar por dizer que foi um dos melhores concertos a que assisti nos últimos tempos, porque para além de 11:11 se ter revelado sinónimo de música extremamente inspiradora, foi verdadeiramente uma dádiva ouvir ser interpretada música tão serenamente intensa, tão vívida, de uma doce e porém secretamente lânguida nostalgia, mas acima tudo de uma “verdade”, de uma sinceridade e de uma construção tão genuína e inteira que é um prazer e uma alegria ter a oportunidade de ouvi-la.

Carlos Bica Quarteto no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Um dos primeiros adjetivos que encontrei enquanto lia um pouco sobre este novo álbum foi efetivamente o “nostálgico”, que foi um dos mais imediatos a realmente transparecer através da música – no entanto, na minha perspetiva esta “nostalgia” é parte de uma sensação algo mais complexa: a nível de exploração tímbrica, este grupo era fantástico em utilizar a sonoridade dos seus instrumentos para tornar a sua música muito mais vívida, até mesmo quase descritiva, e a música tocada neste concerto muitas vezes lembrava-me de um cenário em que o “sujeito lírico”, se é que assim se pode chamar, viaja num comboio – uma impressão que nos é trazida pelo papel belissimamente executado de Carlos Bica, em que o contrabaixo assume, muitas vezes, a realização de padrões ou texturas que funcionam quase como ostinatos, não se prendendo de todo, e bem, ao papel do baixo “convencional” – padrões estes que são sempre portadores de um certo grau de fluidez e movimento, aludindo, portanto, ao andar do comboio. O sujeito lírico parece, então, dirigir-se para o “futuro”, um novo destino, a vida adulta ou simplesmente uma nova fase da mesma – nesta viagem, no entanto, recorda-se de memórias e momentos de tempos idos, que lhe assomam à mente um após outro, encadeados espontânea e naturalmente uns nos outros como nuvens no céu. Ouvimos esta música e parecemos partilhar desta “pausa no trajeto”, embarcando, verdadeiramente, numa viagem sonora que nos permeia e preenche completamente o espírito.

A nível musical, um dos aspetos mais interessantes que encontrei e que foi impecavelmente executado foi o papel da eletroacústica e dos loop pedals, para além da incorporação de técnicas estendidas em cada instrumento, utilizados de maneira sempre contextualizada e aplicados de forma cirúrgica, servindo, sempre, a essência e completa honestidade da música que ouvíamos. A sensação que tive ao longo de todo o concerto – um conceito bastante subjetivo, claro, mas penso valer a pena referi-lo de qualquer maneira – foi de um sujeito lírico sempre num lugar diferente, um lugar que lhe diz alguma coisa mas que de alguma forma é novo, e no entanto os seus pensamentos prendem-se sempre em memórias passadas. A eletroacústica estava, portanto, empregue de maneira notavelmente inconsútil com a dimensão instrumental, e as técnicas estendidas também argumentavam perfeitamente com a “base” da música, por assim dizer, porque tanto uma como outra estavam colocadas e construídas para servir a música.

Carlos Bica Quarteto no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Isto é algo de que eu realmente quero falar e vou demorar um bom bocado a refletir porque é um conceito bastante abstrato, mas, na minha opinião, o que faz as técnicas estendidas e a eletrónica funcionarem tão bem em 11:11 e enriquecerem e ofertarem tanto à música é que estes “apetrechos” (passe a expressão) contemporâneos, mais experimentais, não estão na música para ser usados com o intuito de experimentalismo. Não me parece, de todo, que o grupo se tenha juntado no estúdio e pensado “hoje vamos usar esta técnica”, ou sequer no que é que soaria mais “original”, ou avant-garde, ou outros termos da mesma família – não criticando o experimentalismo porque é muito bom haver quem desenvolva e continue a desenvolver o curso da música e os experimentalistas são grandes responsáveis por isso, no meu ponto de vista. Mas nota-se que todos estes efeitos mais “contemporâneos” são utilizados como uma extensão natural da música que se pretende transmitir – não foram pensados com o intuito principal de enriquecer, de densificar a música, mas sim estão lá porque os próprios temas os chamam para lá e a própria música exige, convida a que estejam lá. Esta organicidade, esta simbiose, esta fusão perfeitamente transparente de tudo deve-se simplesmente ao facto de nada estar lá por simples sobreposição, mas sim porque a própria música o pediu, e aquele é o concretizar perfeito da emoção que a música pede na sua forma mais pura.

Carlos Bica Quarteto no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

O que, para muito pavor meu por, honestamente, ainda estar à procura de palavras para o descrever, nos leva ao ponto que me parece mais importante em todo o artigo: a franqueza, a sinceridade que encontramos nesta música.

Aliás, utilizando como “pontapé de saída”, uma abordagem um bocadinho mais filosófica ao assunto (e aproveitando para uma dosezinha ligeira de autopromoção), após o concerto tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Carlos Bica, oportunidade que muito estimei e pela qual estou, ainda, de coração cheio. O contrabaixista concedeu-me, também, uma entrevista maravilhosa e com a qual temos imenso a aprender – que deixo já no fim do artigo, e não podia recomendar mais -, mas uma coisa que realmente ficou comigo foi quando afirmou, após o concerto, que, acima de tudo, procurou responder às perguntas com honestidade.

Trane costumava dizer que para sermos melhores músicos temos que ser melhores pessoas, porque a nossa música é um reflexo daquilo que nós somos – e efetivamente, é esta franqueza total que encontramos na música de Bica, e que a eleva, para mim, a um nível tão fabuloso. Mas o que eu queria realçar é o quão verdadeira esta música é e como isso impacta tão profundamente a maneira como, na minha opinião, a percebemos, até: normalmente, ou pelo menos para mim, na sua forma mais convencional a música é algo que “passa” por nós, algo em que há um certo “processamento”, uma certa análise. Como se a música fosse um veículo para expressar uma emoção, e nós, como ouvintes, fôssemos responsáveis por “traduzir” essa emoção, lá está, por, de certa forma, “processá-la” e fazer com que ela chegue ao seu resultado final (isto tudo está a soar tão vago que até eu estou com medo, mas não desista, caro leitor, eu vou tentar fazer sentido). Pelo menos eu tenho essa necessidade de “dissecação” quase inconsciente, e isto parece-me, até certo ponto, quase a concepção ou definição concreta de arte – é, também, por isto que, devido às diferentes vivências e perspetivas de cada um, cada um de nós assume uma interpretação diferente de cada obra de arte, não existindo duas interpretações absolutamente iguais.

Carlos Bica Quarteto no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

E no entanto, em 11:11 é como se a música já tivesse chegado a este produto final, não padecesse de nenhuma necessidade por transformação ou análise porque simplesmente não precisa de tal, e tal deve-se, na minha opinião, pura e simplesmente à honestidade, à sinceridade que ela acarreta. De facto, esta música apresenta-se não como o veículo para a expressão da emoção pretendida, mas sim a emoção, a forma musical imediata da emoção pretendida. Por quão alheio que isto possa soar, esta música não é a expressão do sentimento, ela é a tradução do sentimento. É música que nós não ouvimos e dizemos “esta música pretende transmitir isto”, mas sim música que ouvimos e dizemos “esta música é isto”. E isto é possibilitado única e simplesmente pela referida honestidade, porque Carlos Bica consegue criar não um conjunto musical desenhado para transmitir um certo sentimento, mas sim o retrato perfeito e intrínseco do mesmo. É esta honestidade que lhe permite isto. É esta honestidade que lhe confere este resultado, esta coesão, esta direção, este equilíbrio, porque nesta música, a expressividade é sempre a mais pura e crua. Cada nota que ouvimos, cada efeito e sonoridade escolhido, cada ritmo, cada textura são os ideais porque aquilo que ouvimos é a criação no seu estado mais puro e sincero. E no seu estado mais puro e sincero, aquilo que ouvimos é aquilo que ouvimos porque não poderia ser senão aquilo que ouvimos, não poderia ser outra coisa. É isso que verdadeiramente me fascina no álbum e que me encanta profundamente, a franqueza completa com que tudo é construído. É isso que torna a música “perfeita” no sentido em que possui um equilíbrio e escolhas artísticas intocáveis. Tudo está ali porque devia estar, porque esteve e porque não podia deixar de estar. E isso é verdadeiramente mágico.

Carlos Bica Quarteto no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Aproveitando para pegar na nota do equilíbrio, esta sinceridade fomentou, também, um equilíbrio muito bem conseguido a vários níveis – tratando-se de jazz, foi importante sentir que a música “revelava o caminho até onde tinha que revelar”, pois desenhava a linha entre o que se estabelecera e o que ficava entregue à liberdade dos músicos de maneira muito bem articulada. Era, também, perfeita a harmonia entre o detalhe e o pormenor presentes na música, pois existiam na quantidade exata de forma a dar à música a riqueza que ela merecia, mas sem a tornar demasiado densa ou “esquartejá-la”.

Agora que já tive o meu grande delírio textual sobre a honestidade na música de Carlos Bica, gostava, também, de voltar (espero eu mais esclarecidamente) à questão da eletroacústica e das técnicas estendidas por parte dos instrumentos, pois para além de serem usadas sempre com intenção, serem sugeridas pela própria música e, portanto, se fundirem perfeitamente nela, servindo, aí sim, não como acrescento ou adorno, mas sim como verdadeiro enriquecimento musical, elas são muito bem geridas e abraçadas pelos próprios instrumentistas. Sendo a eletroacústica já pensada para manter um certo pendor que não seja apenas extramusical, mas que já possua um cheirinho rítmico-harmónico, para que seja mais fácil de se “unir” à base musical, os músicos, principalmente Gonçalo Neto na guitarra, sabem explorá-la e “trazê-la” para se juntar ao resto da música, no fundo, muito bem, conseguindo fundir todos os elementos que a compõem de forma muito natural. O uso de técnicas estendidas para chegar a novas sonoridades é, também, muito bem aplicado nesta situação mas, mais que isso, realizado com muito bom gosto e sempre um intuito muito narrativo e profundo. Aliás, cada uma das técnicas estendidas utilizadas – o uso da técnica de ricochete no contrabaixo, do arco no vibrafone, dos loop pedals na guitarra, dos multifónicos no saxofone – possuíam um propósito claro e contribuíam significativamente para a dimensão programática e narrativa da música, tornando-a muito mais vívida, teatral e expressiva, o que contribuía sobejamente para a sensação de uma viagem em que encontrávamos diferentes “paragens”, bem como recordações de diferentes “períodos de vida” diferentes, sempre muito nítidos e imersivos.

Carlos Bica Quarteto no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Por último, gostava de falar um bocadinho sobre a maneira como os músicos souberam dinamizar e dirigir o seu papel, pois acho que acabou, também, por se destacar por ser bastante bem orquestrada e cada um ter sido capaz de saber adaptar-se à música da melhor maneira possível, o que considero ter acabado por caracterizar muito positivamente o “som de grupo” de Carlos Bica tanto preza. Em primeiro lugar, penso que há que realçar o facto de que o próprio ensemble escolhido constitui uma escolha muito interessante a nível tímbrico, e uma que, sendo inconvencional, funcionou incrivelmente bem – vemos a ausência da bateria, tantas vezes cognominada como a “alma do combo”, e no entanto a não fazer falta alguma, o que só por si já é curioso, a guitarra como o instrumento harmónico mais “convencional” a não se cingir – felizmente – a esse papel e sendo a principal responsável pela ligação entre os instrumentos e a eletrónica, exprimindo-se de maneira verdadeiramente original para atingir esta simbiose tão fortuita e sempre muito relevante, o vibrafone a adotar uma capacidade lírica e por vezes de um estilo harmónico e textural quase de uma balada, contribuindo profundamente para a sonoridade talvez como o instrumento com o timbre mais “especial”, no sentido de ser aquele que realmente nos remete para tempos idos, ou aquele com sonoridade mais alternativa, mais transcendente, mais “mística”, de certa forma. É o instrumento que realmente dá à música aquele som especial, aquele toque inesperado a nível sonoro, e que preenche, de certa forma, a música de maneira muito versátil e dinâmica. O saxofone de José Soares prima por não se “sobrepor hierarquicamente” aos restantes instrumentos, não adotando o papel de instrumento melódico principal de forma excessiva ou avassaladora e permitindo um som de grupo bastante bem-dividido e em que todos os instrumentos possuem um papel fulcral, cada um passeando pelas várias dimensões musicais – baixo, acompanhamento, hooks, melodia – de forma sempre certeiramente orientada e complementando-se em gloriosa união. Mas o que é realmente bonito é observar os músicos a criar de maneira tão permissiva e consciente, a dar espaço uns aos outros, ajudarem-se e enriquecerem-se mutuamente, e realmente fazerem a música crescer juntos – como já dizia o lendário Herbie Hancock, todos nós podemos aprender algo com o jazz porque é a forma de Arte menos competitiva, onde mais se partilha e onde mais respeitamos e ouvimos os outros.

Este sentido de “hierarquias tradicionais reduzidas” acaba por ser, também, importante à música e é um formato que, na minha opinião, beneficiou em muito a união do quarteto e enalteceu substancialmente a música que escutámos, pois permitiu a todos os músicos “encontrarem-se” muito mais na música, prolongando um diálogo e, acima de tudo, uma audição mútua que gerou um resultado final verdadeiramente louvável.

Carlos Bica Quarteto no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Finalmente, gostava de terminar o artigo com um parágrafo de puro apreço pelo líder do ensemble que protagonizou esta segunda noite do Ovar em Jazz ‘26, Carlos Bica (não acharam mesmo que eu me ia esquecer de falar do bandleader, pois não? ;)), cujo estilo um tanto ou quanto discreto e, no entanto, sempre atento, lírico, muito musical e com um som quente e simplesmente belíssimo, foi, para mim, um enorme prazer poder ouvir e tentar assimilar. Com uma “economia musical”, quase, a caracterizar o seu comping, cada nota que ouvimos do contrabaixo é utilizada cuidadosamente, com uma expressividade e fraseado fantásticos. Ouvimos a atitude de quem se recusa a desperdiçar uma nota, de quem procura a excelência em tudo o que toca, e uma mestria em desdobrar o seu papel e saber medir quando e como participar no discurso musical digna de um Gary Peacock. É verdadeiramente extraordinário e inspirador ver Carlos Bica a interpretar seja o que for da melhor maneira que puder, e esta dedicação sem precedentes realmente transparece na sua música e justifica o seu “toque de Midas” em todas as formações que integra.

Carlos Bica Quarteto no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Mais uma vez, tenho que terminar por manifestar a minha mais profunda gratidão por ter tido a experiência fabulosa de ouvir música tão emocionalmente rica, densa e tão rica em simbolismo e significados. Deixa-me com uma felicidade exorbitante ter encontrado música tão bela, tão bela que tive a noite toda para pensar em palavras que a descrevessem e consegui apenas ficar por aqui – e como tal, não podia deixar de recomendar, se não tiverem a oportunidade de o ouvir ao vivo, ouvirem o álbum que foi apresentado, 11:11 – asseguro-vos que é uma experiência de um valor inestimável.

Depois de todo este relambório, já contam perfeitamente com o que me falta dizer-vos: muito boas leituras (obs.: não se esqueçam da entrevista que têm para ler já aqui em baixo!) e é claro, ainda melhores audições 🙂

Entrevista – Carlos Bica

Carlos Bica Quarteto no festival Ovar em Jazz ’26. Fotos © Ovar Cultura.

MR: Neste seu novo trabalho que vem hoje apresentar, 11:11, descreve a disparidade geracional  entre si e os restantes músicos que o acompanham no álbum como uma “mais-valia” para a  sonoridade do mesmo. O que é que o leva a pensar dessa maneira e que características em  concreto é que podemos verificar auditivamente no álbum que são fruto desta combinação de gerações?  

CB: Mais importante do que as composições, são os músicos que lhes dão uma razão para existirem. A escolha dos músicos para um ensemble ou banda, é o primeiro e o mais importante passo para  que a música possa nascer e crescer em plenitude. O facto dos músicos deste meu novo quarteto serem jovens músicos, é mero acaso. O José Soares, o Eduardo Cardinho e o Gonçalo Neto são alguns dos melhores músicos do panorama nacional e são, sem dúvida, aqueles que melhor se identificam com o som deste  projeto. Estou muito feliz por mais uma vez ter reunido um grupo de músicos que, nesta formação, são  insubstituíveis. É maravilhoso poder dizer que este quarteto só está disponível para dar um  concerto, quando a agenda de todos os músicos o permite. A vida é feita de felizes coincidências, cabe-nos apenas estar atentos, pois muitas vezes são o reflexo dos nossos desejos mais profundos. 

MR: Algo interessante sobre os intérpretes que escolheu para este álbum é que, para além de  serem todos talentos emergentes do jazz, uma escolha que atualmente encontramos noutros  músicos como Avishai Cohen e o seu quinteto, por exemplo, optou por que todos os músicos  fossem portugueses, apesar de atualmente estar radicado em Berlim. É, também, o seu primeiro álbum como bandleader a ser lançado em vinil. Houve alguma particularidade  musical em específico que constituísse um critério na escolha destes músicos que  colaboraram no álbum e como é que descreveria a dinâmica entre os quatro e a maneira  como os orientou como bandleader?

CB: Só depois desta formação ter nascido é que me apercebi de que todos os músicos tinham a mesma idade, bem como a nacionalidade portuguesa, algo que nunca foi premeditado ou  intencional.  Os primeiros contactos com cada um deles aconteceram de formas bastante improváveis: conheci o Gonçalo Neto indiretamente, através de um vídeo no YouTube; o Eduardo Cardinho, num festival na Alemanha onde ambos fomos convidados a participar; e o José Soares surgiu por  recomendação de amigos. Para que haja música com letras grandes, não basta reunir um grupo de bons instrumentistas.  Nos projectos que lidero, procuro músicos que contribuem para que a sua música faça parte  integrante da personalidade do grupo, tornando-se assim em peças fundamentais para o som do  mesmo. 

MR: Atualmente, o Carlos Bica é considerado um dos, senão o músico de jazz português a  conseguir obter mais sucesso internacional, tendo atuado na maior parte dos mais  prestigiados festivais de jazz da Europa e Ásia e colaborado com nomes incontornáveis como  Kenny Wheeler, Kurt Rosenwinkel ou Ray Anderson. De toda esta rica e vasta experiência,  quais foram as coisas mais importantes que foi aprendendo com as colaborações que  realizou ao longo da sua carreira e quais foram os concertos mais memoráveis que deu nos  vários festivais em que já participou pelo mundo fora e porquê?

CB: Apesar de já ter dado concertos em locais incríveis, como por exemplo na Índia ou no Médio  Oriente, os concertos mais marcantes da minha vida, e que jamais esquecerei, foram a primeira vez que toquei em público, numa audição na Academia de Amadores de Música, e também o meu primeiro concerto de jazz, com uma formação por mim liderada. Estes concertos não tiveram qualquer relevância curricular, mas tiveram um impacto profundo na construção da minha identidade, tanto como músico quanto como pessoa. Fizeram-me acreditar que tudo é possível.

MR: Ao longo da sua carreira, o Carlos Bica foi trazendo a palco alguns trabalhos muito  interessantes com cantores de fado e música tradicional portuguesa como Carlos do Carmo, José Mário Branco ou Camané. Qual é a sua opinião e visão da fusão do jazz com a música e  folclore português e qual era o ideal, ou o objetivo que tinha para a colaboração com estes  cantores?

CB: A minha colaboração com músicos como o José Mário Branco, Carlos do Carmo ou o Camané,  deve-se ao convite que me foi lançado para colaborar com estes grandes artistas. Nunca foi intenção minha fazer uma fusão deliberada entre o jazz e a música tradicional  portuguesa. Prefiro antes que a minha portugalidade, que me é intrínseca, surja de forma natural,  não evidente, através da música que escrevo e toco. 

MR: Para além do trabalho no ramo do jazz, o Carlos Bica escreve, também, para teatro, dança e  cinema. O que é que lhe suscitou interesse na ideia de escrever música para “acompanhar”  as artes performativas e como é que surgiu esta oportunidade e abertura para começar, também, a trabalhar neste ramo?

CB: Gosto muito de me assumir como um músico que gosta de ser criativo. Quando sou convidado a participar noutros projetos artísticos, surgem novas oportunidades de criação, bem como novas  fontes de inspiração, que muito me enriquecem.

MR: Uma das parcerias que lhe permitiu estabelecer-se no panorama jazzístico internacional foi a  sua colaboração com a cantora Maria João Grancha, que já atuou várias vezes aqui no  Centro de Artes e até mesmo na última edição do Ovar em Jazz. Desta resultaram álbuns como Conversa, ou Sol. Como é que surgiu esta colaboração com a cantora e o que é que  permitiu que ela se tornasse tão viçosa e duradoura?

CB: A Maria João e eu, juntos demos os nossos primeiros concertos fora de Portugal, que muito contribuíram para a nossa internacionalização. Tocámos juntos durante quase 10 anos, com  muitas digressões pelo meio, até ao momento em que decidi mudar-me para Berlim e  dedicar-me aos meus projetos pessoais.  Mais recentemente, voltámos a encontrar-nos e sentimos vontade de reativar a nossa parceria.  Dessa renovada cumplicidade nasceu o nosso mais recente álbum, Close to You, gravado ao vivo  em várias cidades de Espanha e Portugal.

MR: Finalmente, depois de uma carreira tão profunda e plena em sucessos no ramo do jazz, o  Carlos Bica claramente já leva uma bagagem artística enorme e uma experiência valiosíssima.  Olhando para trás na sua carreira e observando o percurso que fez até se estabelecer e fazer reconhecer em toda a Europa e até mesmo no Mundo, o que é que aconselharia a músicos  de jazz que estejam agora a estudar em Portugal e almejem, um dia, chegar ao seu patamar?  Há algum valor ou processo que considere fulcral para chegar aonde conseguiu chegar hoje?

CB: Cada um de nós seguirá inevitavelmente o seu próprio percurso. Ainda assim, há alguns  princípios que considero essenciais para nos tornarmos bons músicos: estar sempre disponível para aprender, em qualquer contexto musical; procurar tocar com músicos que nos desafiem, que nos mostrem novos horizontes musicais e nos façam crescer; acreditar que somos a nossa maior mais-valia, só cada um de nós pode oferecer aquilo que tem de único; viver a Vida em pleno. 

>