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No passado dia 10 de abril, abriu mais um dia do Ovar em Jazz – e talvez não tenha sido inteligente da minha parte colocar uma aliteração logo na primeira frase do artigo, mas o que é certo é que foi uma grande abertura, efetivamente, de horizontes musicais, rica em diversidade, capacidade exploratória, e, acima de tudo, uma grande, grande proeficiência e profundo “à-vontade” na improvisação e domínio absoluto da mesma.

Começamos a noite com Marius Preda, cimbalonista romeno que traz aos palcos de jazz – aliás, como foi o primeiro a ser capaz de fazer – o seu cimbalom, instrumento tradicional romeno, para nos mostrar o seu estilo de tocar, inédito em todo o mundo e um que, portanto, só ele próprio sabe e realiza com virtuosismo inacreditável.

Marius Preda no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

A verdade é que desde o início do concerto que o cimbalom foi um instrumento que me surpreendeu imenso, pela sonoridade tão própria e, de facto, muito curiosa a nível tímbrico – situando-se, eu diria, algures entre o piano ou a celesta a nível de ataque (o que faz sentido, dado que, apesar de tudo, se tratava de um instrumento de cordas percutidas – apesar de, neste caso, elas serem percutidas pelo próprio instrumentista), mas com uma sonoridade que reminiscenciava alguns instrumentos de cordas como o alaúde ou o bandolim – até mesmo ligeiramente a guitarra portuguesa, provavelmente por esta ter evoluído a partir do alaúde anteriormente mencionado, para além da cítara renascentista, que não deixa de ter algo a ver com a sonoridade do cimbalom, que relembra bastante um instrumento de cordas beliscadas.

Mas, para passarmos à frente da organologia, a música de Marius Preda em si foi uma que fazia lembrar bastante o fusion de Herbie Hancock, especialmente a nível da secção rítmica – tanto nas linhas de baixo que eram empregues, como nas claves rítmicas adotadas pela bateria. Tratava-se de música bastante cativante, portanto; mas, no entanto, aquilo, que, para mim, foi mais impressionante foi a improvisação. Preda usa licks fogosos e viciantes, muito catchy, mesmo muito interessantes, e, especialmente, adota uma linguagem muito bluesy ao improvisar que é sempre afiada e deleitosa de ouvir.

No seu cimbalom, é espantosa a maneira como o artista retira tantos timbres diferentes, percutindo, ou, no fundo, excitando as cordas de tantas maneiras possíveis para obter vários tipos de sonoridade, que emprega como se se tratasse de uma guitarra elétrica com um sem-número de pedais de efeito.

Marius Preda no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

O que se nota, sobretudo, ao ouvi-lo a tocar é, claramente, uma dedicação incansável à música e ao instrumento que geraram o imenso à-vontade que demonstra hoje – uma pessoa pode apenas imaginar as horas intermináveis que passou no instrumento para atingir um nível tal. Para além disto, nos momentos de mais calma e estilo “baladado” (está um belo dia para inventar vocábulos, não é mesmo?), Marius cria introduções de uma beleza simplesmente extraordinária, empregando progressões harmónicas e fraseados melódicos simplesmente incríveis. São, de facto, frases de derreter, comoventes e sobejamente expressivas, completamente encantadoras e prazerosas de ouvir. Até mesmo a maneira como o cimbalonista vai empregando voicings de sobreposição de intervalos consonantes ou mesmo bebendo um bocadinho ao cool jazz com progressões que às vezes se revelam um tanto ou quanto modais é simplesmente lindíssima.

Numa última nota sobre o seu virtuosismo, o que é realmente impressionante é a maneira como o artista consegue improvisar um solo a tamanha velocidade – já o ato de pensar um solo tão depressa é algo de inacreditável, mas o de conseguir executá-lo em tempo real e àquela velocidade é algo de absolutamente inimaginável: temos que ter em conta a dificuldade absurda que é tocar o cimbalom àquela velocidade, pois o facto de não estarmos, sequer, a percutir uma tecla como no vibrafone ou no piano, ambos instrumentos secundários de Preda, mas sim cordas estendidas, ou seja, uma superfície muitíssimo menor, é sinónimo da necessidade de uma precisão verdadeiramente monstra – vamos só dizer que conseguir solos daqueles é um pouco como o Leonidas Kavakos a tocar a Caprice no. 5, só que em esteróides (se alguém não souber do que estou a falar, pode descobrir aqui e, se assim tiver vontade, vir contar-me nos comentários se achou normal: https://youtu.be/fijI_fyRwik?si=PiEdc_C8tTY-S3x1 ) – o que é certo é que, tal como no caso do Kavakos, que, na verdade, teve que “tocar mais devagar” para a câmara conseguir captar alguma coisa, com Preda o olho nu também não conseguia captar senão o rasto das suas baquetas a percutir o instrumento.

Marius Preda no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Acompanhado por um amigo da época do Conservatório de Hague na bateria, este último destacou-se durante todo o concerto pela sua energia entusiástica e fervorosa, partilhando e abraçando a própria energia de Preda. Formaram uma coligação notável, precisamente por conseguirem “unir forças” para contagiar os ouvintes.

Por último, e para referir uma última vez o estilo único de Marius Preda, as próprias superfícies nas extremidades do cimbalom que ele usa quase como “técnicas estendidas” para percutir, superfícies estas de altura indefinida, são também muito bem pensadas e refletem, efetivamente, uma maneira de tocar que Preda fundou e que, realmente, lhe é única – relembra-me, até, da maneira de tocar guitarra fundada por Marcin Patrzałek, que também é completamente única e que eleva o instrumento até ao seu máximo nível de virtuosidade, como é o caso neste cimbalonista.

Marius Preda no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

A noite segue e dirigimo-nos até ao bar do CAO, agora para escutar o sexteto de João Martins, baterista ovarense, e o seu mais recente trabalho, Oxímoro, editado com o carimbo Porta-Jazz. Este trabalho é um que trata os opostos, constituindo uma exploração entre paradigmas antagónicos de diversas naturezas, e introduzindo um sentido de improvisação com muito maior liberdade.

A primeira coisa que me surpreendeu neste concerto, apesar de ser algo que me parece, até, vir a ser um ponto comum na discografia de João Martins a nível estilístico, foi o uso de uma linguagem mais “rockeira”, principalmente a nível de claves rítmicas, a puxar mais ao grunge ou ao metal, neste caso parecendo-me ser utilizada para simbolizar o caos na música de Oxímoro. Foi uma escolha verdadeiramente certeira e inebriante, e executada de forma a capturar uma energia perfeita para o significado pretendido – aliás, se pensarmos nos Nirvanas desta vida a destruir as guitarras e mandar colunas ao chão depois dos concertos (haja uma Martin D-18E ao menos para termos uma recordação do Kurt), esta estética musical a representar a turbulência dá-lhe, efetivamente, o fogo de que ela necessita e faz todo o sentido.

Oxímoro, de João Martins, no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Faz com que seja mais “congruente”, também, de certa forma, a música – antes do concerto, eu tinha em mente algumas questões sobre o “conteúdo estilístico” do álbum, digamos assim – como é que seria retratado o caos? Iria tornar-se em free jazz? Teríamos ali uma linguagem mais ao estilo de Ornette Coleman, ou algo completa e simplesmente sem limites? E a nível de improvisação? Como é que funcionaria esta liberdade acrescida? No fundo, a minha questão era que “fronteiras”, lá está, do jazz é que este projeto cruzaria.

Acho que esta “fusão”, de certa forma, com o rock foi bastante benéfica para não tornar demasiado complexa, digamos assim, a descrição da turbulência – funcionou excecionalmente bem, sem comprometer uma originalidade muito patente e relevante em todo o disco. A improvisação solística foi, também, um ponto forte neste concerto, onde ouvimos solos bem deslocados – no melhor do sentidos – a primar pela exploração muito densa e visceral, eu diria, dos instrumentos, utilizando sonoridades tão originais e que, no entanto, realmente eram sugeridas pela própria música e atingidas de maneira notavelmente orgânica, elevando-a, sem dúvida, a um patamar acima.

Oxímoro, de João Martins, no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Outro aspeto que realmente me deixou satisfeita foi a maneira como esta “viagem sonora” não me parecia apenas o retrato dos contrastes, mas parecia-me que o “sujeito lírico”, o “eu musical” presente na música deste trabalho ia interagindo e navegando por estes contrastes, passando para o público sensações magníficas e deveras profundas – sentimos o medo, o assombro, mas também a libertação, a catarse. Em Oxímoro, realmente possuímos o espaço para interpretarmos a música, ou melhor, até diria para assimilarmos sensitivamente as suas matizes e nuances, o que é algo, na minha opinião, bastante interessante, profundo e irreverente.

Oxímoro, de João Martins, no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Chegamos, assim, a mais uma noite de jazz sob céu vareiro, que Rui Miguel Abreu fecha com chave de ouro com um dj set novamente no bar do Centro de Artes de Ovar. Encaminhamo-nos para a última paragem deste ano, com uma orquestra inteira em palco, mas por agora com a alma cheia de groove, espírito de partilha, e, acima de tudo, novos horizontes que se nos abrem a cada concerto.

O dj set de Rui Miguel Abreu (Rimas e Batidas) no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

E agora, da minha parte, chega a hora de cantar vitória e concluir a história: boas leituras e ainda melhores audições – e eis uma sugestão de audição: entrevistas com o Marius Preda e o João Martins que estão já aí em baixo 😉

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