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Caríssimos leitores e leitoras, apertem bem os vossos cintos, cinturões, capacetes, braçadeiras, joalheiras e outros dispositivos tais, pois eu descobri uma nova banda emergente no jazz português para entrar para a minha lista de predileções musicais e estou entusiasmadíssima para vos contar tudo – falo eu do quarteto Fourward, ensemble de jazz bracarense que inaugurou o último dia da edição deste ano do festival Ovar em Jazz com um jazz original, impressionantemente bem construído, de um groove constante e invejável de tão viciante e uma musicalidade e expressividade magníficas para nos mostrar. Composto por Simão Duque no trompete (no caso deste concerto, no fliscorne), José João Viana na guitarra elétrica, Gonçalo Cravinho Lopes no contrabaixo e Tomás Alvarenga na bateria, este grupo apresentou-nos o seu álbum de estreia, Freedom, num concerto excecionalmente vibrante e de escuta simplesmente deleitosa.

Fourward no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

O primeiro aspeto musical a saltar-me à vista na música deste quarteto (pudera, o primeiro tema começou logo assim) foi a maneira notavelmente bem executada com que os músicos criavam paisagens sonoras que serviam de “pano de fundo” aos seus temas, com o auxílio de pedais de looping e eletrónica e pequenos hooks cuidadosamente posicionados no texto musical a serem executados pelos instrumentos – estes “cenários”, por assim dizer, estabeleciam de imediato um ambiente musical introspetivo, permeante e profundo, sendo curados de forma engenhosa: por vezes chegavam a constituir apenas um acorde, mas eram assíduos em conferir ao “crescendo inicial” um caráter muito mais interno, o que é sempre maravilhoso e fez o restante desenvolvimento de cada música soar sobejamente mais expressivo por ser este o tom estabelecido desde o primeiro compasso.

Algo de muito interessante ligado, também, a este aspeto, era, também, como a música conseguia ser coesa apesar de ser, na sua natureza, até bastante contrastante e dinâmica – as próprias transições entre as mencionadas introduções mais meditativas e os temas – as lead sheets, digamos assim – eram notavelmente naturais e realizadas de forma irrepreensível.

Fourward no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Uma coisa curiosa é que, enquanto que na noite anterior, com o Oxímoro de João Martins, ouvimos um jazz a ir beber muito ao rock, neste concerto ouvimos um pouco a abordagem “contrária” (não fosse o Oxímoro sobre opostos, não é mesmo?) – os Fourward, como mencionaram, aliás, na entrevista que gentilmente concederam ao blog e que fica disponível já no fim do artigo, afirmam ir buscar forte inspiração ao hip-hop. No entanto, aquilo que a música deles mais me relembrou, antes do hip-hop, foi um pop mais a puxar ao bedroom pop, ao dream pop, mais concretamente a artistas como salvia palth – ouvíamos estas influências nalgumas texturas de comping da guitarra, mas principalmente no groove a tempo médio-andante, sempre marcado de forma a manter um sentido de cadência e, portanto, deixando a audiência permanentemente conectada à música.

Fourward no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

A harmonia utilizada foi, talvez, o que efetivamente mais tenha associado ao ramo do hip-hop, por fazer lembrar a abordagem de alguns artistas do ramo do neo soul, como Tyler, The Creator. Porém, mais do que Tyler, The Creator, diria que a harmonia me fez recordar uma faixa muito específica do grande e único disco de Jeff Buckley, e uma grande obra-prima dos noventas, o Grace de 1994 – Mojo Pin. Isto por ser “fora da caixa” na proporção ideal – o quarteto apresentava um som criativo e colorido, jogando com o cariz dos acordes, mas empregando fundamentos harmónicos na quantidade perfeita para manter um sentido de direção, progresso e, no fundo, condução.

Ao longo do concerto, reparamos num aspeto curioso na abordagem à improvisação por parte do grupo, que se prende com a versatilidade e envolvimento sobejamente permissivo dos temas do grupo. Estando a base construída com tão bom sentido de peso e medida, com relativa “simplicidade” auditiva, ou, melhor dizendo, sendo bastante direta, sem esquecer sendo sempre deveras viciante a nível de groove, quando chega a hora de improvisar, as possibilidades são infinitas – como sempre, sim, mas são muito mais amplas as que encaixam na perfeição nos temas. O que é facto é que a música não pede muito, na verdade, para produzir um solo artístico e memorável – aliás, basta até um solo bastante sóbrio para provocar as palmas do público, desde que tenha um bom sentido de musicalidade e uma abordagem cuidada e bem-medida ao fraseado (que, como já devem imaginar, neste caso o teve), mas adaptam-se, também, impecavelmente à música solos mais “descolados” e rockeiros (lembro-me imediatamente de alguns bangers da guitarra de José João Viana), onde os solistas embarcam permanentemente na busca pelo limite e prendem os ouvintes na chegada até ao clímax, com solos absolutamente deleitosos de ouvir.

Fourward no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Existe, também, um pequeno detalhe que me parece ser responsável por um certo caráter contemplativo na música deste grupo – e no entanto nunca passivo, e sim de um groove e energia que, apesar de num andamento relativamente sereno, estão sempre forte e inconfundivelmente presentes: trata-se dos pequenos motivos, quase “mini-hooks” que vão colocando em cada música.

Normalmente tratam-se de apenas dois ou três acordes, mas o que é facto é que são o suficiente para criar um cenário em que a música evolua, claro, mas mais que isso, para haver uma base de que o conteúdo musical parta, mas também retorne, – mantendo, no entanto, um caráter ligeiramente separado do resto para que seja tanto um ponto de referência, como um elo de encadeamento que torne a música mais rica e dinâmica. Mas, honestamente, estes pequenos fragmentos são quase os hooks de um Charles Mingus dos tempos modernos, porque são sempre licks de uma grande expressividade e significado emocional – talvez o exemplo mais direto seja a descida acentuada na lead sheet de Goodbye Pork Pie Hat, um dos mais famosos temas de Mingus juntamente com Moanin’ ou Fables of Faubus. Mas nesta passagem específica de Goodbye Pork Pie Hat, o que pode parecer apenas uma progressão harmónica para retornar ao lick inicial sugere, pelo menos a mim, uma expressividade muito maior, uma descida que nunca acaba, que reflete uma tristeza resignada, perene e entorpecente (que se ouve mais numas gravações do que noutras, e é um absoluto prazer quando é realçada, na minha opinião – por isso, para quem quiser ficar a conhecer, aconselharia a gravação do Charles Mingus Sextet com o Gerry Mulligan, que interpretaram o tema ao vivo). Mas, depois deste desvio pela Foz para ir chegar a Braga, tudo isto para dizer que estes “elos de conexão” no grupo não só traziam diversidade e um sentido de enriquecimento à música, como possuíam sempre um sentimento inerente e profusamente associado a eles – o que realmente contribuía para a expressividade a nível de transmissão emocional, algo em que considero que o grupo também se excedeu e algo que costuma ser bastante mais fácil de se perder no jazz mais avant-garde – pelo que foi, sinceramente, outra surpresa maravilhosa ouvir um álbum com tanta alma e expressividade a esse nível.

Fourward no festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.

Termino, com este artigo, a minha reportagem do Ovar em Jazz deste ano, e consequentemente gostava de agradecer ao festival por mais um ano de grande música e reflexão da vitalidade e poderio do Jazz, mas acima de tudo por, mais uma vez, criarem um ponto de encontro que é sempre sinónimo de amizade, conexão, e, acima de tudo, um lugar de inesquecível e fortuita partilha. Já é o meu quarto ano a cobrir o festival, e asseguro-vos que continua a ser uma das minhas alturas do ano preferidas 🙂

Da minha parte, e pela última vez pela edição do festival deste ano (já me está a dar para a nostalgia)… têm uma entrevista com os Fourward que o grupo amavelmente me concedeu já aqui em baixo, e têm também um álbum magnífico deles para ouvirem na vossa plataforma de streaming de eleição. Chama-se Freedom, e foi, na minha opinião, um dos pontos altos da edição deste ano. E o resto, já sabem: muito boas leituras, e ainda melhores audições!

Entrevista – Fourward

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