A viagem interespacial e intermusical que caracterizam o vibrante Misty Fest trazem-nos, nesta trovejante noite do passado dia 16 de novembro, ao encontro da vocalista e compositora suíça-polaca-japonesa Yumi Ito.
Sinónimo de progressões energizantes, exploração textural vívida e sempre meticulosamente colorida e uma entrega, programatismo e conexão revigorantes, a artista vem sobejamente bem acompanhada pela sua “international band”, constituída por Alessio Cazzetta na guitarra, Nadav Elrich no contrabaixo e Iago Fernández na bateria – ofertando-nos uma experiência potente, rica, e, mais que tudo isto, imersiva, com um forte sentido dramático e conteúdo exacerbadamente expressivo.
Em primeiro lugar, aquilo que ouvimos em Yumi é a fortíssima influência pop que nos é apresentada pela sua música. Possui texturas que nos relembram a sonoridade dos Radiohead na época do In Rainbows (2007), e o próprio caráter da sua voz é extraordinariamente reminiscente das maiores divas do género, como Celine Dion, Whitney Houston, Mariah Carey ou Aretha Franklin. No entanto, nota-se que, apesar desta dimensão estilística e performativa que preenche, muito bem, a comum etiqueta utilizada para a sua música de art pop, a sua música tem um caráter com algo de profundamente africano. “Pois, Mariana, normalmente o jazz soa algo a música africana porque nasceu da tradição afro-americana”… não fique a pensar mal de mim, caro leitor. Mas a música de Yumi parece inspirar-se, ir beber muito às tradições que, sim, originaram o jazz, mas antes de a tradição africana colidir com a música americana mainstream e surgir o jazz, o blues, o ragtime, e por aí fora. Sugere-nos, por exemplo, algumas particularidades da estética da etnomusicologia cabo-verdiana, e até na própria maneira como Ito utiliza e escolhe as sílabas nas passagens de cariz mais improvisatório, no seu caráter desgarradamente livre, ouvimos esta influência muito orgânica e cativante a ser usada de maneira exímia.
A verdade é que, na minha opinião, se eu não olhasse para o palco e, efetivamente, visse um piano, um microfone, uma guitarra, um contrabaixo e uma bateria, o título de “jazz” não seria a primeira coisa em que pensaria para descrever aquilo que ouvimos neste concerto. Para além de termos uma vocalista cujo estilo vocal é marcadamente cinemático e potente, há certos detalhes que vão surgindo para tornar a música mais própria que valorizamos pelo seu contraste e, ao mesmo tempo, união de matizes que trazem aos temas – nos momentos em que a guitarra se destaca, por exemplo, com texturas estilizadas, os efeitos utilizados trazem-lhe um som aquoso que nos lembra o tom da guitarra em “Self Control” de Frank Ocean, por exemplo, e a estética dos motivos escolhidos traz à música um ligeiro sabor quase às canções dos The Smashing Pumpkins, que sempre procuraram um caráter colorido e fora-da-caixa na guitarra de James Iha. Esta textura fluída e densamente policromática, que nos lembra, até, um pouco alguns temas de Pat Meheny, cruza, quase, as linhas do dream pop e conota, um pouco, o 90’s alternative, o que, mais uma vez, reflete o vastíssimo gosto, mas acima de tudo capacidade musical de Yumi Ito.
Yumi Ito no Misty Fest ’25. © Jorge Gomes (Click Time Photo).
Torna-se interessante verificarmos na maneira como a música se baseia sempre num motivo que funciona como uma espécie de ostinato, que é sempre criado com vista a ser muito versátil – mantendo-se exatamente o mesmo, é capaz de adquirir uma sonoridade completamente diferente simplesmente por mudar as sobreposições que o envolvem, como o padrão da bateria, ou até mesmo simplesmente do contrabaixo, bastando apenas isto para alterar a canção completamente. É uma maneira sem dúvida maravilhosa e, também, engenhosa de conseguir manter a música apelativa para o cérebro humano pelo mecanismo da repetição, mas, ao mesmo tempo, sem a tornar obsoleta, ou até mesmo monótona. A própria voz da artista destaca-se do ostinato pela sonoridade poderosa, gloriosa, até com um quê de triunfante de uma Beyoncé ou Christina Aguilera (já para não falar da técnica de falsete incrivelmente bela), mas utilizando um vibrato muito característico de Mitski, por exemplo.
No entanto, há uma diferença fulcral – Mitski usa o seu vibrato para expressar a dor na sua música de forma mais profunda e visceral, enquanto que Yumi usa o mesmo para expressar um sentido de liberdade sem limites. Isto nota-se na própria maneira pura e relaxada como ela projeta a voz. Os seus ad libs com um cariz de improvisação trazem um tom propositadamente diferente a nível tímbrico, o que contribui para o caráter visceral e orgânico da sua música – a própria maneira como ela improvisa faz lembrar, um pouco, a portuguesa Maria João a fazer o mesmo – ouvir Ito é ouvir uma conexão intrínseca e densa com a Natureza, como uma ode, lá está, ao natural, que representa o nosso lado mais primordial, e, consequentemente, feliz e liberto (algo que fica extremamente claro no tema Rebirth, exemplificando).
A exploração tímbrica que ocorre no contrabaixo é, também, muito relevante e curiosa. Quando este instrumento se ocupa do ostinato da canção, o uso do seu registo mais agudo cria uma certa vulnerabilidade intencional num instrumento que, em pizzicato, adquire um timbre muito especial, sugestivo, precisamente, por ser tão específico. O baterista faz uma exploração notavelmente criativa dos 4 pratos montados no seu kit (não me atrevo a tentar enunciar quais, para não meter muito prováveis argoladas), que, mais uma vez, é o que nos traz aqueles pequenos detalhes que saem do quadrado e tornam a música realmente mágica. A maneira como a guitarra faz uso de efeitos como o reverb é muitíssimo expressiva, permitindo à música assumir um caráter não necessariamente experimental, mas definitivamente mais intrincado e rico a nível de construção e, sim, mais avant-garde; mas, acima de tudo isto, a chave-mestra em permitir que a voz musical de Ito seja, em contexto ao vivo, o mais única e fiel possível.
Yumi Ito no Misty Fest ’25. © Jorge Gomes (Click Time Photo).
E, depois disto tudo, ainda não refleti sobre a harmonia (quem costuma ler os meus artigos, por esta altura já deve achar que estou doente) – a harmonia era curiosa porque, na minha opinião, parecia definir-se muito pelo uso excêntrico do modo maior, mas não da maneira berrante utilizada por artistas como Lana Gasparøtti. Lembrava mais compositores contemporâneos como os italianos Ludovico Einaudi e Nico Cartosio. No entanto, neste caso, a harmonia é conduzida, até pelos ostinatos que aparecem no piano, de uma maneira algo old school, com a delicadeza e lirismo de um Bill Evans (que eu gosto de, elogiosamente, apelidar de “o pianista que cantava com as mãos) ou Errol Garner, ou até mesmo Keith Jarrett.
“Acacia”, o tema trabalhado entre toda a banda, foi, sinceramente, o meu tema preferido. A energia era completamente diferente, o sentido de cadência e a própria batida imensamente viciantes. O padrão rítmico da bateria era quase um de rock clássico – sumariamente, passámos de ouvir uma harmonia quase de Jean-Luc Ponty para uma estética quase de Led Zeppelin com o seu bom hard rock & blues. Nadav Elrich demonstra uma sonoridade magnífica, conseguindo tirar uma reverberação natural das cordas que agrupa com um cantabile em pizzicato inacreditável – e verdadeiramente fabuloso de ouvir.
Para além disto, a maneira como os timbres se misturam é sublime, principalmente quando as linhas voz-piano, piano-guitarra ou voz-guitarra se encontram em uníssono ou oitava – a distribuição em si também está muito bem pensada a esse nível. A própria voz de Yumi, como descobrimos no decorrer do concerto, varia muito a nível de caráter, progredindo de um tom livre, natural e vivo para outra sonoridade delicada e cândida, e, finalmente, um cariz expressivo e desgarrado, que faz lembrar, um pouco, a musicalidade e expressividade de Eddie Vedder. É uma variação que a cantora usa a seu favor para criar uma sensação de progressão no concerto, como se fosse uma flor que desabrochasse (como ela diria, que parece gostar tanto da Natureza) em mil cores, e revelando-se cada vez mais dinâmica.
Em conclusão, um concerto enriquecedor e de uma energia absolutamente permeante, em que tivémos a oportunidade de experienciar o vastíssimo, colorido e, acima de tudo, indubitavelmente especial de Yumi Ito. Aproveito para vos aconselhar, ainda, a entrevista que tive o prazer de realizar com ela, que fica disponível já no fim do artigo.
E, como sempre, acabar com aquela máxima indispensável – muito boas leituras, e ainda melhores audições 😉



