No passado dia 8 de abril, subiu ao palco do Centro de Artes de Ovar pela primeira vez no Ovar em Jazz deste ano a cantora, guitarrista e compositora brasileira Anna Setton, trazendo-nos uma fresca e vibrante abordagem à MPB do seu país natal. Ao longo do concerto, pudemos vivenciar não só interpretações comoventes de clássicos do repertório da música brasileira, com que a cantora nos brindou como se recontasse uma história com um tom docemente terno e cálido, mas também temas dos vários discos lançados por Setton, que transformam a tradição brasileira numa verdadeira roda-viva musical, articulando uma nova veia criativa tão característica da autora com a verdadeira essência da canção brasileira numa simbiose surpreendente e deveras bem conseguida.
E, na verdade, um dos primeiros aspetos que gostava de aqui referir é que uma das características na interpretação da cantora que mais me pareceram análogas à estética musical brasileira foi o próprio tom da voz dela – caro leitor, depois disto deve estar a pensar “pois, Mariana, ela canta em brasileiro. Parabéns.”. Mas o que eu quero dizer é que, de facto, a própria maneira como Anna canta, com uma voz que, para além de doce e ligeiramente airosa, é também bastante direta e até ligeiramente suave (no melhor dos sentidos), realmente aparenta refletir a tradição dos ícones musicais do seu país – nomeadamente vozes como Tom Jobim, mas diria mais até os Gilbertos desta vida. Sendo uma voz mais “sóbria”, no sentido de não ser tão adornada, tão produzida, no fundo, como vozes do jazz americano como Ella Fitzgerald ou Sarah Vaughan, a voz de Anna Setton cimenta-se por ser uma voz com um cariz genuíno, macio e colorido: com a liberdade e simplicidade de uma cantora de MPB, mas a emoção e poder de uma cantora de jazz. É uma voz despojada, despretensiosa e transparente, mas também mélica, autêntica e poderosa quando assim precisa.
Anna Setton Quarteto no Festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.
Outra coisa que, claro, reflete a influência da cultura musical do Brasil na música deste quarteto são as claves rítmicas utilizadas nas várias composições apresentadas – e parece que eu estou a bater em lugares-comuns atrás de lugares-comuns, mas de facto as próprias claves apresentadas acabaram por se revelar bastante relevantes. Claro que o simples facto de serem claves even ao invés de adotarem o swing “convencional” do jazz já traz à música da cantautora um grande afastamento do jazz, mas não eram tão simples como claves de bossa – tivémos a oportunidade de ouvir a artista a trabalhar com géneros como o choro, o forró, o bossa nova, o samba, ou o baião, mas tivémos, também, a oportunidade, para mim, ainda mais curiosa de a ouvir a trabalhar com claves rítmicas de forte influência brasileira mas que não soavam, de facto, a “cópias do manual” – no sentido em que pareciam uma variação, uma “reinvenção”, de certa forma, do groove brasileiro, e não uma transcrição exata dos seus vários géneros estabelecidos. Sendo já, por si mesmo, relevante ver outros géneros da MPB sem ser a bossa nova – pela qual eu tenho uma grande predileção, e apenas digo isto no sentido em que esta é a fusão mais comum – a dialogar com o jazz e trazerem novas cores ao discurso desta reunião com a música do Brasil, foi muito bom vê-los a ser tratados e desenvolvidos com tanta vitalidade e espírito criativo.
Anna Setton Quarteto no Festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.
Entramos aqui, um pouco, noutra temática que será, talvez, uma das mais importantes e bonitas na música de Anna Setton – esta originalidade que a caracteriza e que traz um carisma tão próprio à sua música parece-me fruto de uma perspetiva sobre a modernização “contemporização” da música brasileira que se assenta na noção da “canção brasileira” como génese, ou essência, da MPB – algo que a própria cantora já discutiu em entrevistas por ocasião do lançamento dos seus álbuns, e do qual fiquei com a ideia que não se prende em claves rítmicas ou com a harmonia em si, mas sim com a condução melódica da linha vocal que tem um caráter tão característico na música brasileira – tem sempre um lado muito ritmado, às vezes até um pouco “saltitante”, mas ao mesmo tempo as suas frases são dirigidas de forma naturalíssima (às vezes de maneira que é naturalíssima de forma quase miraculosa graças a progressões de acordes bastante originais, como acontece nalguns temas do grande António Carlos Jobim, tais como Wave), para além de possuírem uma graça muito orgânica e cativante, simples e, no entanto, contagiante, e com uma sonoridade que leva tanta alegria na voz, e uma que é tão bonita e cristalinamente pura. O jazz, como sempre, está em casar tudo isto e no espaço para tudo mais, e Anna Setton consegue envolver com a sua própria voz composicional e dimensões rítmico-harmónicas que escolhe a verdadeira génese da canção brasileira, trazendo-nos algo que podemos chamar de MPB, mas acima de tudo algo que, indubitavelmente, tem uma forte assinatura patente em toda a sua obra e que é inconfundivelmente Anna Setton.
Anna Setton Quarteto no Festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.
Neste caso, eu diria até que a componente mais “jazzy” na música desta cantora está presente na vertente harmónica, que se assemelha bastante mais ao jazz americano do que acontece normalmente na bossa nova, por exemplo. Nesse aspeto, o papel do pianista Edu Sangirardi, que acompanhou Setton neste concerto, foi muito bem-conseguido, pois soube enriquecer a harmonia da música que interpretavam com voicings e progressões de acordes muito característicos dos standards de jazz mais convencionais (como os da era do swing, ou até os mais ligados à Broadway, como Cry Me A River, That Old Feeling ou But Not For Me), o que foi bastante surpreendente e realmente trouxe um sabor muito diferente à música interpretada. Aliás, houve momentos em que a composição foi brincando até com o uso dos modos, o que realmente foi a “cereja no topo do bolo” em música já de si tão colorida.
Anna Setton Quarteto no Festival Ovar em Jazz ’26. Foto © Ovar Cultura.
Gostava de terminar por referir que não há nada na música deste quarteto que pareça “aleatório”. Quero eu dizer, é claro como a água que a influência brasileira está lá, mas também é claro que a música desta artista vai muito para além disso, o que é fantástico porque, neste caso, manifesta-se com uma consciência muito completa e dinâmica da música e, no fundo, da cultura que está a abraçar. Nada na música da cantora é “descabido”, mas sim muito coeso e, acima de tudo, muito natural, porque a própria perceção da MPB por parte dos artistas está tão bem constituída e é tão dinâmica e inata que a música brasileira não acaba por ser, de forma alguma, uma moldura, um caldeirão, um conjunto de quatro paredes – como lhe quiserem chamar – em que Setton põe a sua voz composicional, mas sim uma ferramenta que está nas “veias musicais” da artista, algo que simplesmente está dentro dela e que é maleável à sua linguagem musical em simbiose perfeita.
Em conclusão, fiquei mais que satisfeita por ouvir um revivalismo tão refrescante e novas sonoridades a serem pintadas no jazz fusion e na MPB, e espero poder continuar a ouvir a inovação e originalidade vibrantes de Anna Setton por muitos e frutuosos anos. Da minha parte, resta-me deixar-vos aqui em baixo uma entrevista que me foi muito gentilmente concedida pela cantora e despedir-me com o “jargão do costume”: muito boas leituras e ainda melhores audições! 🙂
Entrevista – Anna Setton



