Este ano, o festival de música lusófona FESTA Ovar abre com a apresentação de “Ferry Gold”, o mais recente álbum proveniente de A Garota Não, projeto de Cátia Mazari Oliveira. É um trabalho refrescante, de uma expressividade e criatividade refinadas e cativantes, e um estilo musical intemporal e poderoso.
E A Garota Não traz-nos, portanto, a continuação para o presente de um legado tão nosso: a canção de intervenção. Segue, portanto, uma tradição vasta e de um património portentoso e denso na história musical portuguesa – meticulosamente escondida, entrançada translucidamente como uma língua diferente, como a cantava Zeca Afonso na sua linguagem quase modal e de uma condução melódica tão profundamente expressiva, depois porventura mais assumida e invocatória com vozes como Sérgio Godinho ou José Mário Branco (apesar de o primeiro não se identificar com o género), que porventura já teriam mais meios, ou menos perigo, para alertar, acordar o povo português para a conquista da liberdade, a música pela luta pela própria autonomia na sua criação, como o veículo para a consciencialização da necessidade de mudança até a mudança se tornar realidade.
A Garota Não no FESTA Ovar ’25. Foto © Ovar Cultura.
Abordar este estilo com todo o seu simbolismo não é coisa pouca, não é? Ainda para mais estando intimamente associado a um período histórico tão marcante no país – se pensarmos bem, o nosso 25 de Abril se calhar tem, para nós, o mesmo peso que a Boston Tea Party tem para os americanos, a Revolução Francesa tem para os franceses, ou a queda do Muro de Berlim tem para os alemães. Atrevo-me a dizer, no entanto, que a nossa canção de intervenção é especial por ser um dos testamentos mais importantes à determinação e perseverança inabaláveis do povo português, e um dos testemunhos mais tocantes da coragem e dignidade com que o nosso país trilhou o caminho até à liberdade, igualdade e melhoria das condições de vida.
Mas e depois da Grândola ressoar na Rádio Renascença, há 51 anos atrás? (Podia ter sido totó e ter dito “e depois do adeus da Grândola” para fazer uma dupla referência, mas admitamos, ia ficar rebuscado) Onde é que ficou esta tradição musical após o propósito inicial do seu apogeu ser cumprido? A questão, talvez contraditória, que se poria seria, enfim, algo como isto: como continuar com o legado da música de intervenção, agora que temos liberdade para o fazer?
A verdade é que o ser humano acaba sempre por encontrar problemas em tudo – ou quase tudo -, o que é tanto um problema em si como uma mais-valia. Mas o que é facto é que A Garota Não traz esta necessidade de exposição dos defeitos da sociedade e da luta por novos objetivos para o presente, revivendo uma tradição cultural cujo valor histórico deve ser respeitado e celebrado, mas cujo valor e vitalidade na sua forma musical justifica que continue a ser desenvolvido.
A Garota Não no FESTA Ovar ’25. Foto © Ovar Cultura.
A cantora empresta a sua voz a este género com notável criatividade no trabalho das suas linhas vocais – a própria maneira como ela canta relembra-nos da maneira de cantar da própria música tradicional portuguesa, mas não se limita, de todo, a esse tipo de estética (aliás, a nível estilístico da própria música não tem absolutamente nada a ver) – a artista explora elementos e horizontes interessantíssimos a nível vocal, como algumas frases menos “melódicas”, se é que se pode chamar-lhes assim, e mais de uma exploração expressiva dos ruídos da voz no seu estado mais natural (música concreta, anyone?) – para não entrar em grandes dissertações, como Robert Plant dos Led Zeppelin em “Whole Lotta Love”, por exemplo. A voz cantada em si era, também, explorada como uma camada tímbrica diferente, contrastando com o seu registo de “papel principal” natural ao trazer-nos, também, outras texturas originais e refrescantes que enriqueciam a dimensão instrumental da música, adicionando-lhe algo novo e inesperado. Estas linhas eram mais livres e harmonicamente relevantes, e chegavam a assemelhar-se aos sintetizadores de Portishead em excertos do seu repertório como a introdução de “Humming”, por exemplo.
Estas técnicas realmente fazem a música destacar-se ao conceder-lhe um cariz mais “psicadélico” e porventura um pouco experimental, talvez até ligeiramente cinemático, e sempre construído com um caráter único e irreverente.
A Garota Não, de certa forma, não só recupera o género da canção de intervenção ao utilizá-lo na atualidade, como o “moderniza” a nível musical, imbuindo-lhe técnicas musicais cada vez mais utilizadas na música alternative, como o uso de gravações faladas que já eram incorporadas em “Wish You Were Here”, dos Pink Floyd (sim, eu considero os Pink Floyd alternative apesar de eles serem classificados como mainstream rock, mas isso é uma conversa para outro dia), mas continuam a marcar presença em artistas e temas atuais, como Guitar is Dead, tema de abertura do Dragon in Harmony de Marcin Patrzałek, ou, numa corrente mais mainstream, no aclamado álbum de estúdio Blonde, de Frank Ocean, no icónico Thriller de Michael Jackson ou no fervoroso diss track Not Like Us, de Kendrick Lamar, que começa com um sussurro falado antes sequer do primeiro verso.
A Garota Não no FESTA Ovar ’25. Foto © Ovar Cultura.
Ora, estando a tratar um formato musical com a bagagem histórica de um género como este, é sempre preciso uma certa delicadeza e bom gosto para lhe transmitirmos a nossa estética (nenhuma performance historicamente informada de repertório do período Barroco há de levar uma guitarra elétrica, não é mesmo?) – e A Garota Não, assumindo a estética da música tradicional portuguesa a nível de técnica vocal, cria uma fusão muito bem conseguida entre a tradição musical do género e um estilo mais late 90’s-00’s rock, com linhas de baixo potentes e contagiantes e drum fills a criar ainda mais movimento. Ou seja, para mim, isto trata-se também, um pouco, de um testamento à versatilidade da etnomusicologia – tenho plena noção de que a canção de intervenção não é exatamente etnomusicologia pura (senão a “Liberdade” do Sérgio Godinho seria um extraterrestrezinho musical no meio daquilo tudo) mas temos que admitir que, primordialmente, a nível musical o género derivou um pouco daí.
Portanto, se analisarmos por esse prisma, o que é que haveria para correr mal?
O blues é etnomusicologia africana adaptada ao panorama musical americano da época. O bossa nova é etnomusicologia brasileira aplicada ao jazz. A enka é etnomusicologia japonesa incorporada no blues. Esta fusão do estilo vocal tradicional com uma estética musical mais “rockeira” só podia correr bem.
E agora quando dizemos rockeiro, podemos refletir noutra coisa: como assim rockeiro?
A Garota Não no FESTA Ovar ’25. Foto © Ovar Cultura.
Pelo menos na formação que ouvimos neste concerto (até porque A Garota Não já tocou apoiada por conjuntos musicais muito diferentes, tendo chegado até a atuar com a Orquestra da EPME, se bem me recordo), a parte instrumental não era extraordinariamente desenvolvida, a não ser mais pelos próprios ad libs e licks que a voz ia mostrando, cimentando a sua polivalência e dinamismo.
Mas não havia propriamente nenhum Jimmy Page ou Eddie Van Halen a soltar um solo de 3 minutos a cada música. Então, rockeiro porquê?
Bem, em primeiro lugar eu apontaria como razão as claves rítmicas utilizadas pela secção bateria-baixo, que realmente dão cadência à música, a tornam mais enérgica, e lhe concedem, até, uma aura mais groovy. E, felizmente, a cantora não se limita a este carisma já de si cativante, mas traz-nos outras matizes singulares com o uso de estratégias como os loop pedals, por exemplo. E, claro, a artista sabe tirar o melhor proveito possível da sua música ao criar contraste de maneira engenhosa dentro de cada canção – isto, para mim, denota-se na própria disparidade de estilos vocais entre frases musicais, que variam desde um estilo quase “falado” (como se fosse uma espécie de rap melódico, digamos assim) até um estilo muito mais lírico e cantabile – talvez a melhor comparação da diferença entre estes contornos melódicos seja a diferença entre uma ária e um recitativo, por exemplo.
Em suma, era, já, importante o trabalho d’A Garota Não em trazer e dinamizar a canção de intervenção nos palcos de hoje e com as lutas de hoje, mas mais bonito foi vê-la concretizar tal feito de maneira tão pessoal, entusiástica e sentida. Música tão expressiva, e com uma camada letrística que a torna quase numa homenagem à força e vitalidade do povo português, foi uma escolha em cheio para abrir um festival tão acolher, vibrante e alegre.
Deixo, aqui, então, a minha expressão de apreço pelo trabalho desta cantautora, em particular pelo seu novo disco, e que venham muitos mais 🙂



