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No passado dia 1 de Agosto, Baptiste Trotignon e o seu trio subiram ao palco da Sala Suggia para abrir a edição deste ano do Porto PianoFest, que celebra, este ano, 10 anos desde a sua inauguração. Baptiste, representa, portanto, de certa forma, um “alargamento”, ou evolução estilística no festival, no sentido de o tornar mais diversificado e abrangente no vastíssimo tema que é a produção musical pianística – neste caso, não só celebramos, para além do clássico, também o jazz neste festival, mas exploramos dentro do próprio jazz um projeto inovador e curioso – o de transportar a obra de alguns dos maiores nomes do rock clássico, entre os quais The Beatles, Pink Floyd, Queen, Led Zeppelin, Radiohead e David Bowie para a atmosfera jazzística, criando reinterpretações refrescantes, originais, e perfeitamente harmonizadas com o género.

 

Agora, como podem imaginar, quando eu vi um repertório que literalmente parecia que alguém tinha ido desencantar as minhas playlists e escarrapachá-las num álbum, a minha grande obcessão por rock clássico e brits alternativos começou logo a gritar que tinha de ir (ia tendo um fanico quando vi Led Zeppelin na sinopse, vamos a ser sinceros) – e fez muito bem, pois foi um bocadinho bem passado em que ainda tive a oportunidade de entrevistar o pianista (a quem volto a agradecer a generosidade e disponibilidade), e depois de uma bela voltinha na cidade que alberga o festival, tive direito a um concerto que não só recriava as peças de maneira completamente única e singular, como o fazia numa simbiose total e ainda acompanhava de um som, também ele, cativante e original. Portanto, sobre o concerto, tenho imensas coisas a dizer.

 

Começando pela própria sonoridade do trio, que foi a primeira coisa a surpreender-me por si só – o piano destacava-se a nível de sonoridade por uma textura que fazia o ritmo harmónico corresponder ao contorno rítmico da própria melodia, o que me espantou pela sua capacidade de transmissibilidade e aumento do destaque e do cantabile da melodia. O som da bateria era veementemente composto por um papel importante dos pratos – que, apesar de aparentarem serem os três pratos standard num drum kit normal, eram usados em quantidade reforçada, o que trazia à música uma sonoridade muito mais “estrondosa”, se é que se pode chamar assim, mas e que o papel da bateria é muito mais proeminente, de um som brilhante. O contrabaixo, no entanto, fundia-se sonoramente com o piano na perfeição, numa conjunção completamente natural e extraordinariamente inconsútil.

Baptiste Trotignon Trio no Porto PianoFest ’25. Foto © Porto PianoFest.

Este balanço cria uma sonoridade nova e poderosa, que me parece criar uma ponte perfeita para a estética livre e cheia de “animalidade” do rock, como o próprio artista a descreve, para além de se tornar relevante ouvir um jazz trio que parece desafiar um pouco a “hierarquia sonora” tradicional, com a bateria a ter um papel um pouco mais importante e o duo contrabaixo/piano a interligar-se melhor, criando um som muito mais potente e timbricamente rico, que permite e se adapta muito melhor ao jazz fusion sugerido para este concerto.

Em relação ao piano de Trotignon, este porta várias características que me fascinaram, e muito, também, que eu aprendi ao ouvir este concerto – em primeiro lugar, algo que se destacou, para mim, foi o uso do espaço. É uma coisa com a qual eu estou sempre a levar na cabeça por querer pôr vinte notas por segundo em todo o lado, e por isso me parece mais importante por ver Baptiste a fazê-la com tamanha mestria, no sentido de quase sempre, não importa o quão desenvolvida ou “intensa” a música esteja a ficar (a chegar ao clímax, basicamente), é raro ele sobrecarregá-la quer ritmicamente (e mais especificamente a nível do ritmo harmónico), quer em termos de harmonia vertical, pelo que deixa uma margem enorme para a criação de contrastes e texturas entre secções, tornando as suas interpretações muito mais ricas, coloridas, interessantes e plenas em detalhe, revelando um aspeto musical conciso, mas que não lhe tira, de maneira nenhuma, a abundância de musicalidade, e tornando-a, isso sim, mais coesa, cativante e direta. É um bocadinho aquilo que o George HARRISON fazia, por exemplo. Se repararem os papéis dele em canções como “Dear Prudence”, por exemplo, verão que a sua contribuição não é extremamente densa, mas é impactante. É este tipo de concisão àquilo que é relevante e manipulação da densidade que nos leva à viagem “ondulada” que Baptiste nos propõe, e que beneficia em muito arranjos de jazz de material que, por força da sua organização natural, pode não ser fácil de adaptar por fruto de repetições estruturais.

Baptiste Trotignon Trio no Porto PianoFest ’25. Foto © Porto PianoFest.

Depois, e talvez isto seja realmente o que me deixou boquiaberta no concerto de Baptiste, foi a qualidade do seu cantabile – é algo que eu já tinha lido e já tinha sido mencionado na entrevista com Trotignon, mas ouvi-lo (e, vá, como não podia deixar de ser, analisá-lo) foi algo deveras estimulante. Para além de um cantabile mais “convencional” também ele excelente, o que me maravilhou ainda mais foram certos momentos mais densos a nível de ritmo harmónico em que as notas da linha melódica aparentavam ser repetidas ao dito ritmo harmónico de forma a criar um efeito que realmente se assemelhava ao de um instrumento de oscilação alimentada (instrumentos convencionalmente ditos “melódicos” como o violino, saxofone, etc.) – aliás, aqui a iluminada ainda levantou os olhos do caderno enquanto estava a tirar apontamentos algumas vezes porque ia jurar que apareceu um trompete no palco de repente, ou que o contrabaixo tinha decidido pegar no arco e estava a tocar altissimo.

Não. Era o piano. E isso, para mim, foi algo de impressionante, inédito, até. De inesperado, pelo menos, foi.

Para além disso, refletir, também, na versatilidade de Baptiste – que tem tantos estilos, ou melhor dizendo “registos estilísticos” diferentes, e tão bem trabalhados na sua individualidade, que se torna, de certa forma, imperativo que a tenha. Estes estilos variados que vai incorporando de uma forma tão natural e fluída no seu trabalho torna o mesmo numa experiência de uma linguagem única, e embarcar numa viagem musical com Baptiste é encontrar uma fusão de matizes bem-orquestrada e em que todas elas nos trazem algo de diferente, criando um padrão que é sempre cativante e nunca cai na monotonia. O pianista é capaz de passar de arpejados enormes por todo o piano a uma harmonia e condução melódica completamente jazzy (ft. os meus queridos mini clusters), e até mesmo a frases cantabile e muito expressivas que parecem saídas diretamente de um noturno do período Romântico. O que me leva a pensar que talvez seja, enfim, esta versatilidade que faz com que arranjar estas peças seja, para Trotignon, algo de tão natural.

Baptiste Trotignon Trio no Porto PianoFest ’25. Foto © Porto PianoFest.

Quero eu dizer, adaptar o rock à sua caneta parece-me a mim, sinceramente, uma tarefa facílima para Baptiste – porque esta é só uma das linguagens com que ele, mais do que trabalhar, sabe “brincar” e moldar com todas as ferramentas que já leva no arsenal da sua vasta e movimentada carreira – quando ouvimos uma interpretação jazz de um hit do pop-rock britânico e a introdução nos parece um Fauré, ou até um Debussy, talvez da época dos Préludes… enfim. Acho que está tudo dito.

O que nos leva a voltar àquilo que, porém, será uma das primeiras características que vêm apontadas na biografia do pianista – o virtuosismo (se bem que ainda quero voltar aos arranjos em si, porque a naturalidade com que eles estão feitos é algo impressionante e que tem, também, que ser explorado).

Se calhar, quem segue aqui o blog já há algum tempo sabe que eu não costumo ligar grande coisa a virtuosismo. Nada contra, mas nada de extremamente a favor se for apenas virtuosismo puro. O que me interessa é a expressão, claro. Aquilo que eleva a música à condição de arte, ao invés de um mero chorrilho de notas.

Nunca fui, de qualquer maneira possível, fã de virtuosismo gratuito – para mim, virtuosismo sem musicalidade não passa de infindáveis horas de estudo sem intuito nenhum – mas o virtuosismo de Baptiste, no entanto, não é de todo gratuito. É sim fantástico, de uma musicalidade estrondosa.

As suas secções mais “loucas” em cinquenta registos diferentes não são meras amálgamas de notas para deixar o público de boca aberta, ou apenas criar um efeito sonoro sugestivo. Não é propriamente um John Coltrane nos seus tempos de metralhadora em altissimo (nada contra o Coltrane, ele tem alguns solos muito bons, mas só acho que às vezes havia certas passagens um pouco “levianas” só para corresponderem ao contorno melódico que ele queria – não deixa de ser interessante, mas podia ser mais pensado e musical). O que eu acho, isso sim, é que Baptiste põe intenção em cada nota, o que para mim é algo de incrível, principalmente dadas as altas velocidades a que ele o faz. A musicalidade, a intenção que Trotignon concede a cada nota que toca, não importa ou virtuosismo ou dificuldade da secção em que se encontre, cada uma delas está acompanhada de um motivo. Não há nenhuma que eu tenha ouvido e tenha achado insignificante para o panorama musical da interpretação. Nenhuma que esteja lá só por estar. Ouvir virtuosismo ao serviço de interpretações destas, sim, torna-se uma experiência maravilhosa, uma transmissão musical profundamente bela.

Baptiste Trotignon Trio no Porto PianoFest ’25. Foto © Porto PianoFest.

Para descrever, então, o virtuosismo do pianista, gostaria de citar uma frase curiosa de The Institute: “se as minhas capacidades jogam no banco, ele é o Michael Jordan”, ainda que ache mais justo um bom “se eu fico no banco de um clube de 2ª divisão, ele é o Michael Jordan”, porque, vamos a ser sinceros, mesmo assim continua a ser lisonjeiro para o meu lado. No entanto, é bom ver música tão bem pensada onde a aplicação desta proficiência técnica realmente apoia um propósito musical importante. Este virtuosismo, no caso de Trotignon, torna-se pivotal para fazer transparecer a inteligência musical e dimensão criativa tão atentas ao detalhe e que reluzem ao mais pequeno pormenor a compleição e cor da música.

 

Voltando, portanto, aos arranjos em si, tal como prometido: os arranjos deste concerto, para já, acho justo dizer que estão no “ponto certo” – dito de uma forma bastante deselegante, até porque mentes mais divagantes que ouvissem isto poderiam ficar a pensar se estamos a falar de um arranjo de jazz ou de uma boa peça de picanha colocada na brasa.

 

Mas estamos a falar dos arranjos, calma – basicamente, o que eu quero dizer é que os arranjos aproveitam a sua liberdade criativa de forma equilibrada – não são adaptações estratosféricas em que já nem se reconhece qualquer tipo de semelhanças com o original, mas também não são lead sheets com sétimas e swing. O trabalho original nunca é desrespeitado pelos músicos, mas a música é sempre desenvolvida de maneira criativa, cativante e, principalmente, de uma forma que se vai renovando, nunca adormecendo o ouvido dos espectadores. Os temas, porém, tornam-se adaptados na sua integridade à estética pretendida, o que é um feito tanto impressionante, como difícil – e comprova a vitalidade não só dos temas cuidadosamente escolhidos, como também da linguagem bem afirmada e explorada dos músicos em palco (como se o seu estilo pessoal fosse a “poção mágica” que cria uma fusão tão bem-conseguida).

 

E, depois, referir o próprio virtuosismo a nível composicional que se denota nos arranjos – quero eu dizer, novamente virtuosismo usado em prol da música, o que é excelente, mas queria mencionar que os próprios arranjos estão imbuídos de uma riqueza musical impressionante, e uma tão bem-feita que porventura não será captada à primeira vista – o que, note-se, acontece aos melhores (“é daquelas coisas que só acontece aos melhores, e não aos piores, e definitivamente não a todos”, pensei eu em escrever, só para logo de seguida questionar a aparente deterioração do meu sentido de humor).

Baptiste Trotignon Trio no Porto PianoFest ’25. Foto © Porto PianoFest.

Por exemplo, isto é algo que eu senti que o Tigran foi desenvolvendo ao longo da progressão da sua carreira, e subsequente amadurecimento musical, até agora – quanto mais ele ia crescendo enquanto músico, menos “aparentemente complicada” a sua música ia ficando. É um pouco como Bach, que é um exemplo magnífico para este aspeto – simples para o ouvido, excruciantemente complexo no papel.

No caso de Trotignon e seu trio, notamos isto quando olhamos para as acentuações na bateria, por exemplo – uma complexidade não aparente, mas que, quando reparamos, é bastante ao estilo “Johnny Greenwood a pôr um contraponto coral em 5/4 por cima de uma linha principal em 4/4”, numa maneira em que não salta à vista numa audição mais relaxada, mas que traz à música a sua singularidade e caráter, dando-lhe o seu “toque Trotignon” sem a desvirtuar da sua integridade original.

Terminaria por referir a criatividade na gestão de recursos por parte dos instrumentistas – um baterista extremamente criativo que chegava a conseguir um travo a Eric Moore sem ter os onze mil pratos à frente, um baixista que, mantendo-se sempre no pizzicato característico do contrabaixista jazz, trazia várias sonoridades diferentes à técnica, desde um snap que chegava a ser quase um Bártok pizz. a passagens melódicas em que sabia, sem dúvida, tirar o melhor da caixa sonora do instrumento, para além de guarnecer as ditas passagens com slides e portamentos que acabavam por lhe trazer um pouco de cantabile, mesmo que em pizzicato, e uma fusão tão balançada entre o contrabaixo e o piano que criou uma sonoridade especial para todo o trio.

Baptiste Trotignon Trio no Porto PianoFest ’25. Foto © Porto PianoFest.

Em suma, uma experiência contagiante e muito bem conseguida, quer a nível de execução, quer a nível composicional, e, é claro, uma ótima escolha para arrancar com o festival! Mais do que uma audição, foi uma preciosa oportunidade de aprendizagem e celebração do legado musical não só do rock, mas também do jazz. Fico, com certeza, à espera de ouvir mais, e sempre de tal maneira criativo 🙂

Mais uma vez, gostava de acabar ao agradecer ao Baptiste Trotignon pela bondade em conceder a entrevista que fica no fim deste artigo, e recomendar, mais uma vez, a sua escuta. Como sempre, boas leituras e ainda melhores audições 😉

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