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A Orquestra Municipal de Ovar, um ensemble sob a batuta de João Martins que se apresenta sobre este nome pela primeira vez, e um artista que já tem o seu próprio nome louvavelmente cimentado no panorama musical português – Virgul, ex-Da Weasel e também Nu Soul Family, projeto que começou, e que vem a trilhar uma refrescante e viva carreira a solo com trabalhos como o famoso hit “I Need This Girl”, colaborações bem-sucedidas com artistas dos mais variados géneros musicais, e, finalmente, uma discografia já assinalável que culmina no seu mais recente EP, “Mais Do Que Entreter”.

É esta a proposta que as celebrações do Dia do Município nesta cidade nos trazem para encerrar as mesmas, e encerrá-las com chave de ouro – Virgul e a massa instrumental que o acompanha trazem-nos um som vívido e enérgico, que proporcionou aos presentes uma noite de júbilo, animação e movimento.

E, sinceramente, ao fazer a minha habitual “mini antevisão mental” do concerto, não esperava outra coisa de um membro dos Da Weasel, um grupo que sempre me cativou pela cadência inalienável e profundamente poderosa na sua música – que considero que sempre foi, e continua intemporal, já agora. Porém, Virgul surpreende de imediato pelo uso assíduo de claves rítmicas já de si contagiantes, mas emparelhadas com uma dimensão harmónica vasta e cheia que adiciona imenso aos seus temas – não se limitando a padrões rítmicos já de si bem conseguidos, as progressões harmónicas com subtilezas detalhadas, o uso de extensões nos acordes e os vários diferentes ritmos harmónicos sobrepostos não só justificam o brilhantismo que a banda sonora lhes traz, como elevam as canções ao torná-las muito mais dinâmicas e de uma musicalidade abundante.

Virgul com a Orquestra e Coro Municipal de Ovar. Foto © Ovar Cultura.

Um destes aspetos na dimensão harmónica chamou-me particularmente a atenção – as duas vozes que acompanhavam a letra. Enquanto que nem sempre fossem totalmente heterofónicas, o balanço entre heterofonia e polifonia era cuidadosamente realizado de forma a criar cores e direções diferentes na própria música, acabando por criar contraste de uma forma que explorava a linha vocal principal de uma maneira muito mais profunda. O melhor exemplo que eu tenho desta característica serão, porventura, os The Beatles, que também jogavam muito com isto a seu favor – mais no início da carreira deles (leia-se: antes de se fartarem uns dos outros e ir cada um fazer música para o seu canto), podemos encontrar temas da caneta de Lennon/McCartney como “Love Me Do” ou “If I Fell”, em que às vezes se torna, até, um pouco desafiante distinguir qual é a linha vocal principal, dado que a polifonia entre linhas vocais está executada com uma simbiose tão perfeita. E no entanto, em temas mais tardios, em temas como “Don’t Let Me Down”, começam a usar, também, uma sobreposição mais heterofónica, principalmente nos refrões, como também vemos ser feito no caso de Virgul. Isto, mais uma vez, adiciona caráter à obra do cantor pois faz com que o ritmo harmónico pareça mais rápido e fluído, criando um sentido de movimento que também ajuda à animada secção rítmica – mas para além disso, e especialmente porque neste concerto o artista atua com uma banda filarmónica, faz com que esta parte da harmonia, apesar de detalhada, não seja pesada ao ouvido. Sem esquecer que, por si só, estes paralelismos vocais nos refrões, por exemplo, trazem sempre poder e transmissibilidade à música, e neste caso são lindíssimos.

Em relação à parte rítmica, verifiquei algo que já tinha lido em algumas críticas sobre o cantautor – a incorporação de claves rítmicas maioritariamente provenientes da etnomusicologia latina (neste caso etnomusicologia que me pareceu principalmente da zona da América Central, mais precisamente de Cuba e, muito pontualmente, indo beber um pouco ao tradicional 3-3-2 do tango argentino). Isto manifestou-se, para mim, maioritariamente em canções que incorporavam a clave rítmica da rumba, o que me chamou a atenção pela maneira como ela estava completamente adaptada ao estilo musical próprio do cantor.

Virgul com a Orquestra e Coro Municipal de Ovar. Foto © Ovar Cultura.

Pelo que me foi dado a entender por trabalhos anteriores de Virgul (particularmente com o grupo Nu Soul Family, que integrou juntamente com nomes como Dino D’Santiago, conhecido também pela sua fusão do hip-hop com estilos como o batuku e o funaná), este artista procura frequentemente o conceito da reinvenção na sua obra, o que também explica, um pouco, este uso das claves latinas de forma tão magistral. Isto acaba por ser, mais uma vez, um testamento à versatilidade, adaptabilidade e dinamismo da etnomusicologia, mas não deixa de ser admirável o talento do cantor em moldá-la à sua própria voz composicional em fusão irrepreensível e, o que me impressionou ainda mais, imperceptível – pode ser um preciosismo, mas quando eu ouço jazz fusion, por exemplo, que use este tipo de elementos de propósito, normalmente é algo em que eu reparo pela própria sonoridade. Algo que seria visível (ou, no caso, audível… a sinestesia está no auge por estas bandas) quase como um elemento separado, como uma sobreposição. Mas, no caso de Virgul, se eu não tivesse uma noção prévia disso, eu provavelmente não repararia neste aspeto rítmico de todo, porque este está trabalhado de uma maneira tão própria que se torna completamente característico da linguagem do artista, convertendo-se, neste sentido, exatamente na dita reinvenção.

Aliás, outro aspeto que ainda tem um pouco a ver com isto é a maneira como as camadas musicais são completas em si mesmas, e no entanto se complementam perfeitamente – quero eu dizer, em momentos em que ouvimos apenas a orquestra sem a secção rítmica, por exemplo, verificamos que a música soa igualmente completa apenas por si só, apesar de ter um cariz completamente diferente, claro. Isto realça o quão bem construídas as “camadas” destes temas foram, mas neste caso, também a forma como os arranjos de João Martins foram tão bem feitos. A importância fulcral do trabalho do maestro ao adaptar a música para o ensemble deste concerto foi, aliás, algo referido na entrevista que o Virgul gentilmente concedeu, e, para mim, ficou claro que os arranjos primavam por oferecer à música um ambiente que se revela intrincado, mas sem ser demasiadamente complexo ou rebuscado, e, ao mesmo tempo, oferecendo à música uma sonoridade muito mais substancial e cheia de caráter.

João Martins dirige a Orquestra e Coro Municipal de Ovar. Foto © Ovar Cultura.

Tenho que realçar, também, que todas as músicas de Virgul são viciantes. Neste concerto, não houve qualquer exceção a esta regra, pelo menos. Não houve uma única música em que eu não tenha tido o prazer de olhar em volta e ver o público alegre e a dançar. Aliás, acho até um pouco desafiante ouvir um concerto do Virgul e estar quieto, e a mim sempre me disseram que isso era sinal de qualidade – neste caso, sinal de groove, também, um groove potente e animado que permeou a noite inteira.

Há também que refletir sobre a maneira como a condução melódica da voz principal está tão bem feita, seja em que tema for – as estrofes iniciais começam sempre com uma condução melódica à base do grau conjunto, mas nunca caindo na monotonia através do emprego de ritmos mais detalhados e acentuações bem estudadas. Continuamos num crescendo, criando sempre arcos maiores na linha vocal, progredindo cada vez mais em direção ao refrão, e trilhando cada passo até ele sem nunca nos desconectarmos da viagem. E, finalmente, no refrão, temos o grande momento estilo Mon Coeur S’Ouvre a Ta Voix (Muse, se bem que nada a ver com o estilo musical da banda britânica, atenção), com saltos mais intrépidos e uma condução contagiante e “ariosa” que nunca desaponta. Isto, a meu ver, é algo que contribui, também, para o aspeto anteriormente referido de que todos os temas são consistentemente cativantes – em completa sinceridade, quando ouvi o artista começar logo com a sua canção mais conhecida, achei, no mínimo, estranho. Mas o que é certo é que o concerto, com efeito, começou com a energia lá em cima e continuou sempre lá em cima.

Virgul com a Orquestra e Coro Municipal de Ovar. Foto © Ovar Cultura.

Ainda na nota da condução melódica, e não me querendo fazer passar por nenhuma especialista em trato vocal, mas considero que a própria voz de Virgul evoluiu imenso desde o tempo dos Da Weasel. Agora está, na minha opinião, mais aberta, mais expressiva, mais brilhante, condizendo com o caráter sempre vivo e jucundo da sua conposição. A este “fator alegria” juntam-se, ainda, progressões harmónicas (lá estou eu com a harmonia às costas) por vezes um pouco jazzy, com muitas sétimas, que, ainda que possam passar despercebidas, trazem cores à música que lhes dão o seu caráter jovial e radiante – mas, e talvez isto seja ainda mais relevante, estas novas cores fazem com que os paralelismos heterofónicos nas linhas vocais anteriormente referidos soem muito mais naturais e integrados, o que é um toque de mestre na construção e desenvoltura destes temas. Em relação à banda filarmónica, tendo em crer que este tipo de formação traz sempre à música do cantor um caráter que é algo mais cinemático (como, aliás, me fizeram sentir concertos de Tiago Bettencourt com uma banda filarmónica, por exemplo) – não obstante, acho que no caso de Virgul a banda adiciona à sua música, principalmente, a nível de texturas.

Se pensarmos nisso, os instrumentos de sopro serão talvez os instrumentos mais capazes de oferecer efeitos sonoros mais singulares e inusitados, principalmente com certas técnicas mais do ramo do jazz como o growl, o subtone ou o slap tongue, para citar como exemplo algumas das chamadas extended techniques do saxofone jazz. Ou seja, a banda filarmónica torna-se um ensemble que pode ser aproveitado de maneiras muito inteligentes, com apontamentos especiais que funcionam quase como “interjeições musicais”, por exemplo, se é que se podem chamar assim. Foi isto que me chamou a atenção nos arranjos da música de Virgul neste concerto, trazendo ao público um sentido quase de big band americana do tempo do Ray Charles, e que dedica à música um carisma incrível.

Virgul com a Orquestra e Coro Municipal de Ovar. Foto © Ovar Cultura.

Por último, devotar uma nota ao equilíbrio sonoro tão bem-vindo neste concerto – não se relega a banda filarmónica para pano de fundo para se ouvir o complexo bateria-guitarra-baixo habitual do próprio Virgul, nem vice-versa. A percussão está sempre candidamente presente mas homogénea, e ouvem-se os “mini licks” do coro exatamente quando é preciso. A guitarra elétrica destaca-se quando assim lhe compete, no seu bom estilo Don Felder, mas coaduna-se na perfeição com a restante massa instrumental, enriquecendo-a timbricamente. E o som é sempre estrondoso (saí do concerto quase tão surda como quando o Marcin Patrzałek veio ao Lisboa ao Vivo este ano), o que torna este feito ainda mais louvável.

Em suma, um concerto inesquecível de melodias viciantes, orquestração deliciosamente detalhada, claves rítmicas apaixonantes e músicos fervorosamente dedicados à sua arte. Há coisa mais bela de se ver?

Virgul com a Orquestra e Coro Municipal de Ovar. Foto © Ovar Cultura.

Pode ter sido o primeiro concerto da Orquestra Municipal de Ovar, mas deu provas de ser um projeto que vale a pena manter e alimentar, e que teve a sorte de começar o seu caminho com um músico que já leva tanta experiência no caminho estelar que é a sua carreira musical.

Foi-me gentilmente concedida uma entrevista pelo Virgul depois do concerto, pelo que a deixo transcrita aqui em baixo. Mais uma vez gostaria de agradecer por esta oportunidade e recomendar a sua leitura!

Como já é costume, boas leituras e ainda melhores audições 🙂

Virgul com a Orquestra e Coro Municipal de Ovar. Foto © Ovar Cultura.

Entrevista

MR: Em primeiro lugar, ao ler mais sobre o seu percurso verifiquei que esta não é a primeira vez que o Virgul se apresenta com um ensemble sinfónico, já se tendo apresentado neste formato ao explorar a fusão entre o hip-hop e a música clássica [sob a direção do maestro Rui Massena, antes do término da digressão de Re-Definições, 5º álbum de estúdio dos Da Weasel]. Em que é que este conjunto de instrumentos enriquece ou adiciona à sua música e, na sua opinião, que características da sua música permitem a sua adaptação ao formato sinfónico tão bem sucedida?

V: Eu acho que a resposta é a mesma para as duas perguntas, que tem a ver com a pessoa em si que fez os arranjos e que respeita imenso a minha música logo de partida, que é o João Martins. A gente já se conhece há imenso tempo, aliás, ele já gravou em discos meus, e então torna-se muito fácil não só a leitura dele, mas também respeitar muito não só aquilo que é o meu gosto, mas a música que já lá está, e acaba por depois ser uma coisa tão natural e tão… parece quase original, não é? Eu acho que o João Martins tem essa sensibilidade e esse gosto especial que torna tudo numa simbiose perfeita, digamos.

MR: Ao longo do seu percurso musical, o Virgul tem vindo a colaborar com músicos provenientes dos mais variados géneros, desde o compositor contemporâneo Bernardo Sassetti até a nomes mais atuais como Sam the Kid ou Dino D’Santiago. O que é que o Virgul procura nos músicos com quem colabora e, até agora, quais foram as colaborações com as quais aprendeu mais e porquê?

V: O que eu procuro sempre é que haja algo de diferente que eu ainda não tenha feito, mas também, de certa forma, na verdade é descobrirmo-nos, porque muitas das vezes os outros podem trazer coisas novas que nós, sozinhos, não conseguiríamos chegar lá, ou a nossa própria descoberta não nos traz esses sabores, essas diferenças que eles próprios têm e aprendemos, também. E é isso, um bocadinho, que eu tento explorar porque, para mim, a música sempre foi partilha desde o tempo dos Da Weasel, por isso é muito isso que eu procuro quando estou a trabalhar com outros artistas, outros músicos. A colaboração com a qual eu aprendi mais foi naturalmente se calhar com os Da Weasel, foram bastantes anos e foram aprendizagens que eu também depois trouxe muito para a minha carreira a solo. Mas sem dúvida que os Da Weasel deram-me imenso, aprendi imenso, cada um de nós tinha algo de especial que trazia, e diferente de todos os outros, e isso completava-nos. E obviamente que depois, quando iniciei a minha carreira a solo, tive que eu ser esses seis elementos, e tirei um bocadinho deles todos, por isso é… muito, muito Da Weasel mesmo.

MR: A sua biografia cita como suas influências artistas como Michael Jackson, Stevie Wonder, Tupac Shakur, Bob Marley e Pharrel Williams, o que reflete, mais uma vez, o seu gosto musical dinâmico e alargado. A minha questão é, se pudesse colaborar com um destes artistas que o influenciaram e influenciam, qual seria e porquê?

V: Eu sou muito fã e hei-de ser sempre eternamente grato e fã do Michael Jackson, acho que ele deu muito à música mundialmente, mas se calhar escolheria um Pharrel, não só pela estética musical dele mas pela alegria, também, pela positividade que ele traz na música, que acho que é algo que também me caracteriza. Acho que facilmente nós íamos identificar-nos um com o outro e traria se calhar algo de especial, também, à minha música.

MR: Por último, o Virgul apresenta-se hoje com um projeto instrumental inédito na cidade, que junta músicos da Banda Sinfónica de Ovar e da Sociedade Musical Boa União, assim como 15 vozes do coro do Orfeão de Ovar, sob a direção do maestro João Martins. O que é que suscitou a colaboração entre o Virgul e este ensemble, como é que descreveria o ambiente de trabalho nos ensaios de preparação para este concerto e o que é que destacaria como as características mais positivas que levaram ao sucesso desta colaboração?

V: Isto foi um convite do João Martins, o João Martins já costuma fazer isto, aliás, ele fez também no ano passado com o Dino [D’Santiago], pessoa que também me disse para eu aceitar de imediato o convite, porque tinha sido uma experiência fantástica, e eu, ao conhecer também um extenso nome de pessoas com quem já trabalhou, e que tem um gosto musical e sabe muito bem o que é que está a fazer, e é fácil confiar no João. Por isso, acho que é muito por aí. Não só a aceitação, mas também o facto de o resultado também ser tão bem-sucedido. Obviamente que depois também se deve ao coro, e a todos os músicos e a todos os intervenientes, mas ele é a peça, sem dúvida, ali o elo que liga tudo e que faz com que as coisas depois corram lindamente, como correu hoje à noite.

  • Maria Manuel Costa diz:

    Foi um concerto excecional, que preencheu a nossa Praça da República de uma alegria fervilhante! Parabéns ao Ovar Cultura por confiar ao maestro João Martins (o master arranjos jazz…) a tarefa de harmonizar um artista musicalmente tão rico como o Virgul com a estreante mas muito competente Orquestra e Coro municipais.
    Bravo!!!

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