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Posso assegurar-vos que é muito, muito difícil explicar o quão entusiasmada eu estava por este concerto. É um daqueles que faz parte de um dos meus fenómenos preferidos, que é o de quando eu digo que quero ver um artista e ele “vem ter comigo” – quando andei a ver concertos do Tigran Hamasyan e só havia em Lisboa, ele veio ao Ovar em Jazz (e o melhor é que já era fã dele há anos e anos, logo tive um verdadeiro momento de euforia). Quando o Marcin veio a Portugal pela primeira vez, calhou-me exatamente naquelas férias semestrais estranhas de cinco dias que não servem de grande coisa. Quando andei a ver concertos do Manel Cruz na Lousã e outras terras que tais, vieram os Ornatos ao Coliseu do Porto – e eu, feita inteligente, não cheguei a ir. Então a senhora sorte, para não me chamar nomes, mandou o Manel Cruz precisamente à minha cidade (mais perto era difícil).

Mas ter o vocalista e compositor principal da minha banda portuguesa preferida a tocar na minha cidade é um tipo de sorte daquelas que quase que metem cobiça… bem, vou dar o meu melhor para não parecer uma criancinha de cinco anos que recebeu a Barbie que ia pedir ao Pai Natal. Este era um daqueles artistas que eu faria das tripas coração para ir ver, que tinha que arranjar forma de ver ao vivo, de uma maneira ou de outra (imaginem esta tolinha, muito aflita a ligar para a organização porque já não conseguiu arranjar bilhetes antes de eles esgotarem… aproveito já para agradecer à organização do Ovar Expande e da agenda cultural da cidade em geral por serem sempre empenhados e atenciosos, para além de impecáveis comigo).

Manel Cruz no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Portanto, tivémos o Manel dos Ornatos Violeta, depois o Manel “multi-bandista”, depois o Foge Foge Bandido e agora, finalmente, Manel Cruz a solo, apoiado apenas em si mesmo – uma mudança catártica num músico que prima pela densidade dos seus arranjos. E tenho que dizer que não desapontou, nem por sombras.

A primeira coisa que me saltou à vista (ou melhor, aos ouvidos) no concerto de Manel Cruz foi a versatilidade e teatralidade da sua voz. Esta moldava-se ao caráter e tema das suas músicas, conferindo-lhe uma expressividade muito mais poderosa e poética. Lembro-me em particular da primeira canção interpretada no concerto, de atmosfera nostálgica e inocente, em que a voz de Manel portava um tom ingénuo e juvenil, que me fez lembrar a voz de timbre cândido e pueril de Maria João. Já em canções mais evocativas e incitadoras, a voz do artista torna-se muito mais basilar, chegando até a cair no registo da fala de forma quase dramática. Esta adaptação particular da voz e da maneira de cantar alia a música à palavra de forma intensamente lírica, adicionando ao universo já de si rico a nível de escrita do cantautor uma dimensão igualmente rica a nível de performance.

E algo interessante e, talvez, inesperado para quem ficar com os velhos tempos dos Ornatos mais perto do coração, é a evolução a nível composicional no estilo deste artista. Quem ouvir a “rockalhada” brava de “Cão!”, álbum de estreia dos Ornatos Violeta que se enquadra quase no indie alternative, não acredita nas baladas calmas e introspectivas que Manel traz, agora, a palco. Fazendo-se valer apenas das suas próprias capacidades performativas, em vez de ter um grupo de instrumentistas a apoiá-lo, este novo caráter que nos propõe tira, sem dúvida, o melhor proveito possível dos horizontes criativos que uma linha vocal e um instrumento permitem. Este ensemble nas mãos do cantor é um momento intimista, um momento de partilha enriquecedora e serena – o mesmo músico que, um dia, cantou “Raquel” neste mesmo formato num tom quase de brincadeira, com os seus jocosos “Está a gravar?” (e, na verdade, conseguiu um número inesperado de ouvintes dessa música), é o mesmo que agora se destaca no seu ensemble de uma alma só pela vulnerabilidade e sinceridade do seu pensamento musical e letrístico, que nos preenche, principalmente, pela sua verdade e atenção ao mais singular dos detalhes.

Manel Cruz no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Isto leva-me a um assunto que me apaixona, na verdade, mas que não costumo abordar muito aqui no blog, que é o aspeto letrístico, o ramo da poesia – que, neste caso, parece-me inalienável à música de Manel Cruz. A sua música pega nas coisas mais singulares que encontra ao seu redor, singelas e docemente mínimas, e reflete e apresenta os seus pensamentos sobre elas de forma tão bela, elaborada e bem-articulada que traz às suas canções um mundo que é intensamente rico, cheio de matizes e cores a brotar em cada recanto. Esta dimensão tão pessoal e contemplativa é o que realmente nos toca, o que nos leva até ele e nos faz ouvir a sua musicalidade, que é profundamente densa. Muitas vezes falo no blog daquelas raras músicas que nos fazem querer parar um bocadinho e ficar ali, a apreciar, de olhos fechados, e neste concerto, cheio delas, só não o fiz porque os outros dois terços de mim estavam um deles com o velho “tenho um artigo para fazer”, e o outro com o “ESTÁ ALI O MANEL CRUZ” (seguido de muitos pontos de exclamação, que não reproduzo para manter o artigo minimamente legível, convenha-se).

Mesmo, mais uma vez, na questão da evolução estilística, as letras de Manel costumavam centrar-se sempre tanto no amor, como na expressão do eu próprio – um eu intrincado que, a mim, me prendia em álbuns inteiros, na procura de uma compreensão mais completa. Agora Manel traz-nos um pouco de tudo em cada música, pequenos itens que tece numa união florida pela sua visão mágica, quase encantada da vida, que demonstra uma maturidade que não tira a fantasia sobre o nosso redor, que muitas vezes associamos à ingenuidade.

Manel Cruz no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

O que nos leva ao tema da harmonia, porque este é um dos muitos que, na obra de Manel Cruz, se revela coeso com toda a restante dimensão musical de forma impressionante – enquanto que as letras do artista são compostas por imagens incrivelmente poéticas e, mais especificamente do que isso, muito figurativas ou abstratas, o seu significado é completamente claro, direto e transparente, e de uma transmissão completamente certeira. No lado harmónico, as progressões de acordes que o cantautor escolhe são sempre inesperadas, cativantes e originais, e, no entanto, conjugam-se sempre de forma perfeitamente natural. Como no caso de Portishead, por exemplo, que fazem isso extremamente bem, mas com uma linguagem mais policromática e densa. E mais que isto, as canções são, ainda, complementadas por detalhes que as tornam muito mais completas e bem-conseguidas, principalmente a nível de voice leading na parte instrumental e, também neste campo, nas texturas utilizadas – acordes paralelos de quartas e quintas perfeitas, ou por vezes até mesmo de uníssonos, a guitarra quase sempre a trazer-nos um cheirinho de fingerstyle, a linguagem harmónica às vezes até a descer para modal… são estes detalhes, junto com os timbres que variam com o uso da percussão, ou até mesmo do clarinete – sim, caro leitor, o Manel Cruz chegou a tocar clarinete numa das músicas, já a meio do concerto; foi, no mínimo, inesperado – que realmente tornam a música muito mais dimensional, e lhe trazem as camadas e a diferenciação que as fazem destacar, que fazem com que elas nunca sejam quadradas, mas sim sempre com um sabor próprio – mesmo para o seu formato de one man show, o artista é capaz de fazer jus à sua fama de arranjos admiráveis.

Manel Cruz no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Finalmente, quem pergunta de onde é que vem a criatividade para tudo isto, a catadupa de canções e todas elas tão bem-conseguidas, pergunta de onde é que vêm as 70 canções que fazem parte do Foge Foge Bandido, e todas do mesmo álbum – e isto é algo a que eu responderia com a minha convicção de que Manel Cruz tem aquilo a que eu costumo chamar o Síndrome de Mozart: ao estudar a vida e obra deste compositor, deparei-me com uma afirmação curiosa e extremamente apropriada de uma violoncelista de uma orquestra norte-americana que disse o seguinte: “Mozart é um reservatório de música” – no sentido em que há sempre mais uma canção à espera de sair da caneta dele, como se fosse algo que vivesse dentro de si e simplesmente saísse quando invocado. Enquanto que os Beethovens desta vida vão atrás da música, têm que a procurar e buscar incessantemente para a construir – e isto é visível nos manuscritos rabiscados e desgrenhados do compositor, que era um indeciso incurável -, os Mozarts escrevem música sem cometer um único erro de forma completamente natural, como se o seu próprio cérebro lhes ditasse – um bom exemplo disto é a abertura da ópera Don Giovanni, que Mozart escreveu na noite antes do dia da estreia porque se lembrou que ainda não a tinha escrito (…quase que era a tempo). Lá fez uma direta com uma boa quantidade de álcool e a sua esposa a contar-lhe histórias para o manter acordado, e saiu uma abertura orquestral para o pobre copista, que entregou as partes instrumentais a todos os músicos, que, por sua vez, olharam para a abertura pela primeira vez quando a tocaram na inauguração. E a composição saiu assim, limpinha, à primeira.

À esquerda, um manuscrito não publicado de W. A. Mozart, que se pensa ser uma cadência final ao “Rondo Alla Turca” da Sonata KV 331. À direita, um manuscrito da Quinta Sinfonia de L. van Beethoven.
Manel Cruz no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

No caso de Manel Cruz, é isto que a sua música me faz lembrar – sugere-me uma naturalidade imensa para a condução melódica, um talento quase incompreensível para escrever música cativante e que fica dentro do ouvido, música que não só está bem-feita do ponto de vista formal mas que, na sua génese, possui uma predisposição, um engenho para a melodia que simplesmente não se explica. E o cantor agrupa este dom de criar algo que é simples (no bom sentido) e natural mas, ao mesmo tempo, especial e abundante com uma atitude maravilhosa, parece-me, de não levar tudo aquilo demasiado a sério, mas sim permitindo-se uma liberdade para a experimentação que o leva a conseguir um som único e sempre vanguardista. E, para além disso, é um cantautor que corresponde um bocadinho à minha noção de que grandes músicas tidas como ímpares estão sempre no limiar entre o genial e o incoerentemente complexo – um caso flagrante deste efeito serão os Radiohead com músicas como a Lotus Flower ou alguns títulos do A Moon Shaped Pool, por exemplo. Em Manel Cruz, tudo é recôndito no melhor sentido da palavra, e no entanto se conjunta como um todo que se traduz em perfeita harmonia.

Manel Cruz no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Em suma, tive a sorte de experienciar um concerto de um artista cuja partilha é uma união, cujas belíssimas letras são evocativas e sempre provocadoras de reflexão, e cuja música está sempre construída com carinho, habilidade, sagacidade e sempre uma atenção ao detalhe notável – sem esquecer que tudo isto é feito de forma transparentemente autêntica. Por muito que ele decida meter um capacete na cabeça que mais parece aqueles do videoclip de “Jigsaw Falling Into Place” (mas ainda mais… bem… inventivo) e pôr-se a tocar a “Aldeia do Maluco” da forma mais paranormal que consiga imaginar, é impossível não levar a sua música a sério, porque os horizontes criativos a que chega e que procura voluntariamente vão sempre estar alicerçados na genuinidade e excelência que sempre caracterizaram Manel Cruz.

Que os 51 anos que celebrou no dia deste concerto lhe sejam frutuosos, e da minha parte, como sempre, boas leituras e ainda melhores audições 🙂

Manel Cruz no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.
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