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Chegamos ao segundo dia do Ovar Expande deste ano com ouvido ávido e curioso, que anseia por mais. Depois da comovente atuação de Manel Cruz a fechar o dia anterior, voltamos à Escola de Artes e Ofícios com um programa que nos propõe três nomes para passar a noite: Bia Maria com o Coro da Comunidade, Ela Li e Afonso Cabral.

Bia Maria arranca com arranjos corais que, curiosamente, quase nos fazem relembrar música tradicional galaico-portuguesa trazida para a modernidade, e, portanto, sempre com linhas de bateria incrivelmente viciantes, mas, para além disso, rejuvenescida com harmonias atuais e bem orquestradas, exploradas de forma expressiva e tendo em conta o contexto vocal específico em que se inseriam. E, claro, o trabalho feito pela artista com o coro destaca-se por demonstrar tanta desenvoltura e primor – os arranjos são complexos na medida certa e a sua dimensão polifónica preenchendo o sentido mais fiel a esta palavra, e este projeto foi um que, definitivamente, trouxe resultados notáveis na noite de ontem.

Bia Maria no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Esta textura tão específica, a da sobreposição de vozes, foi uma que sempre me fascinou e inspirou – mas usá-la como Bia Maria o faz neste concerto, quase, de certa forma, como “sintetizadores naturais”, no sentido de preencherem a harmonia com um timbre que não é quadrado, mas sim airoso e refrescante a nível sonoro, é algo muito bem jogado e que torna a música mais orgânica, mas também, de certa forma, mais irreverente. A polifonia é orientada para o seu sentido mais bem-construído, mais “barroco” do termo, pois durante a audição não sentimos nenhum instrumento ali como mero apoio. A harmonia distribui-se pelas vozes de maneira conduzida e plena em musicalidade, com um ambiente que reminisce a introdução de “Nude”, do disco “In Rainbows”, dos Radiohead.

Bia Maria no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

As composições em si destacam-se no sentido de não serem música simplesmente triste, ou, pelo contrário, simplesmente feliz – apesar de, como frisado pela autora, serem sempre algo nostálgicas (o que é, para mim, um dos sentimentos mais poéticos que podemos imbuir na Arte). Mas não se caracteriza por ser demasiado carregada emocionalmente, ou por ser negativa na sua génese. São, sim, temas que possuem um sentimento que está dentro do espetro entre o feliz e o triste, mas nenhuma delas se pode reduzir a uma dessas qualidades. Esta complexidade, ou variedade aparentes estão realizadas de forma inteligente, para não obter um retorno demasiado pesado, mas sim transmitir uma emoção única. A nível instrumental, o que me impressionou foi que a própria voz de Bia Maria era um efeito, por vezes, alargando a sua voz a um uso que chega a ser instrumental. A guitarra leva-nos a estilos muito diferentes, chegando até mesmo às baladas folk americanas, em momentos que nos relembram de Going to California dos Led Zeppelin, ou da obra de Joni Mitchell. Mas, na verdade, o que se leva deste concerto, na minha opinião, é a jovialidade e alegria que ela traz para palco, a vivacidade da música, seja em que registo for.

Bia Maria no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Seguimos com Ela Li, que me impressionou sobejamente com o seu formato em trio e sabor a música latina. Somos imediatamente levados pela onda dos ritmos da América Central e Sul, envolvidos por um som quase jazzy na voz de Ela que une toda a dimensão musical dos seus temas. Desde a Argentina ao Brasil, ouvimos música viciante e cheia de groove, e solos improvisados na voz que são absolutamente de deliciar. A percussão é diversificada e timbricamente rica, variando em muito a textura do trio, e criando um som que é muito mais singular. As sonoridades percussivas mais agudas são usadas de forma magistral, chegando-nos aos ouvidos mesmo no ponto certo, tal como as da bateria de “Whole Lotta Love”, ou “Caravan” pelo arranjo de John Wasson. No entanto, é a sonoridade ímpar e muito especial que as destaca e torna os temas tão abundantes a nível musical.

Ela Li no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Agora, e para terminar o aspeto rítmico, a música de Ela Li é muito, mas muito groovy. Há uma frase que o meu professor costuma dizer sempre que tenta explicar o groove que eu continuo a achar a mais simples de o descrever, que é “se estás a abanar a cabeça, já é bom”. Acho que é seguro dizer que eu estive a abanar a cabeça o concerto todo. E não fui só eu, nem foi só a cabeça – não fosse o aspeto latino um aspeto tão cimental nestes trabalhos, era difícil parar quieto, era desnecessário parar quieto. Até, mesmo, os próprios músicos pareciam estar completamente imersos. A este ponto, eu consideraria a música de Ela Li jazz fusion, muito sinceramente – talvez jazz com ritmo latino, porventura até com um pouco de rock a sentar-se à mesa. Chegava a haver temas que eram claramente feitos em estilo de bossa nova – que é, muito resumidamente, jazz com ritmo de samba – em todos os aspetos, quer rítmico, quer harmónico, quer mesmo estilístico. Momentaneamente descia para um ritmo decididamente de funk, mas um funk com valor musical e conteúdo (este caráter dirigia-se apenas em relação à clave rítmica).

Ela Li no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Portanto, é o ritmo que traz cor à música. É a instrumentação percussiva que lhe traz uma sonoridade relevante. Mas a voz? A voz de Ela Li é lindíssima. Gostava de ser especialista em vozes femininas para trazer uma comparação equiparável, mas não sou. O trompete, sim, em particular fez-me lembrar o som extraordinariamente macio e lírico de Chet Baker, a minha primeira obcessão jazzística. As suas linhas melódicas eram densas em emoção e emparelhadas perfeitamente com o cariz menor harmónico da maior parte dos temas de Li, levado ao máximo pelo uso de cromatismos e exploração da sensível e notas de passagem, que lhe traziam uma melancolia que faria lembrar a música de um tango.

A harmonia, muito baseada no modo menor e no uso da sensível, mantém-se excitante por esta elaboração da base, tornando a escala muito menos limitada. Isto é visível principalmente nos licks da guitarra, discretos mas imaginativos. E no meio de tudo isto, Ela modela a sua voz com eficácia e perícia, sempre com um toque com os portamentos de Beth Gibbons, a entrega e condução de frase de Ella Fitzgerald, o caráter absolutamente delicioso e cândido de María Zardoya e a liberdade e fervor de Clare Torry ou Juliana Linhares. Uma frase que acabei por apontar no caderno e que porventura soará um bocado ridícula é que a voz dela é quase como um desafio ao silêncio. Que ela ganha sempre. É alegre como um samba e desprendida como um fado corrido. Os seus ad libs com efeitos especiais que cria com a voz são expressivos e cativantes, e deixam-nos a repeti-los dentro da nossa cabeça, assemelhando-se ao clímax de um bom solo de jazz, e a cantora demonstra uma criatividade e naturalidade a nível vocal que a torna irreverente.

Ela Li no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Fechamos a noite com Afonso Cabral, que nos traz um estilo que puxa muito mais ao rock do que até então. É um som distintamente do rock baladado português, que é sempre bom de ouvir – os solos de guitarra eram mais desenvolvidos do que o que tínhamos ouvido até então, o que foi uma boa característica, e os sintetizadores definitivamente estavam feitos com muito bom uso. No entanto, há sempre ali uma boa base de secção rítmica que permite a coesão de todo o ato musical, trazendo à tona aquele sabor a rock underground que é estranhamente familiar, mas sempre assinado em nome próprio.

Afonso Cabral no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

A música cruza um pouco a barreira entre o rock e o pop, sempre imbuindo pequenos caminhos, pequenos elementos em cada canção que lhe dão um cariz singular – faz-nos lembrar aquelas bandas dos anos noventa que ouvimos e achamos a construção perfeitamente rotineira, e depois pomos os fones e dizemos “o que é que está um motivo de violoncelo a fazer aqui no meio? Eles pensavam nestas coisas, sequer?” – bem, é seguro dizer que, no caso de Afonso Cabral, isso não me surpreende. É quase como a diferença entre ouvir bandas dos 60s/70s com uma ou duas colunas.

Afonso Cabral no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

A heterofonia prima por nunca ser demasiado direta, e o entusiasmo partilhado pelos músicos em palco é energizante, sempre com uma energia vital e rockeira (o baixista, em particular, fez-me lembrar o Kirst Novoselic). As linhas de baixo são sempre magistrais, e as intermissões eletroacústicas originais e cheias de caráter, a linha vocal sempre com uma condução melódica bela e pensada, quase com a harmonia e batida de grupos como os Blur, os sintetizadores a roçar o bedroom pop.

Afonso Cabral no Ovar Expande ’25. Foto © Ovar Cultura.

Em suma, uma noite diversa e fruto de uma combinação de talentos flagrantes! Como sempre, boas leituras e ainda melhores audições 🙂

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